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Não culpem a tecnologia pelos nossos males

Não culpem a tecnologia pelos nossos males

Um condutor andava preocupado com o estado de saúde da mãe, de 93 anos, e tinha atribuído um toque específico ao número de telemóvel da pessoa que cuidava dela, por forma a poder facilmente identificá-lo. Numa das suas viagens, recebeu uma chamada urgente. Atendeu. Foi apanhado pela GNR a falar ao telemóvel. Foi multado e viu-lhe aplicada a sanção acessória de inibição de conduzir por 90 dias. No dia seguinte, a sua mãe foi internada. Morreu na semana seguinte.

Revoltado, impugnou a decisão junto do Tribunal de Viana do Castelo, que reduziu para 60 dias o período de inibição de conduzir. Ainda inconformado, recorreu para a Relação de Guimarães. "O pronto atendimento do telemóvel com vista a poder prestar ajuda imediata à sua mãe (pelo seu encaminhamento ao hospital, se fosse caso disso) mostra-se meio objetivamente apto a remover perigo". O tribunal entendeu e deu como provado que, no dia dos factos, o condutor tinha recebido uma chamada urgente, relacionada com o estado de saúde da sua mãe. Absolvido.

Inibir o sinal de telemóvel ao volante, como pondera o Governo, para fazer controlo de velocidade, é uma hipótese não só irrealista como tonta. Não, não é o telemóvel que é o inimigo do condutor. Os números de acidentes provocados pelo mau uso do telemóvel são assustadores, é verdade. E, à luz do Código da Estrada, mexer no telemóvel é considerado uma contraordenação grave punível com multa que pode ir até aos 600 euros e perda da carta até um ano. Mas, citando o jornalista e escritor brasileiro Dagomir Marquezi, que se tem dedicado a escrever sobre os aspetos humanos da informática, "culpar a tecnologia pelos nossos males é como culpar as armas pelas mortes que provocamos".

Não há que ter medo do progresso. Há que aproveitá-lo. Explorar as suas potencialidades. Ensinar. São aliás inúmeras as aplicações disponíveis que podem tornar o smartphone um precioso aliado do condutor. Umas avisam a quem nos liga que estamos a conduzir e, portanto, não podemos atender, outras alertam-nos da proximidade dos veículos que circulam à nossa frente, indicam-nos onde há engarrafamentos ou acidentes ou ligam automaticamente para números de emergência.

Sábias as palavras do Papa Francisco, que considera necessária "uma ação educativa" que dê "maior consciência das responsabilidades" aos condutores e que pede às autoridades que ajam de forma a não serem olhadas com desconfiança ou como inimigas.

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