Opinião

O Tinder dos negócios e da política

O Tinder dos negócios e da política

A Web Summit foi, nos negócios e na política, como o Tinder: escolhas. No final, cada um que faça as suas. Começou com uma verdade de La Palice de Edward Snowden e terminou com uma vaia ao responsável tecnológico da Casa Branca que, repetindo a cartilha de Donald Trump, atacou a China e a Huawei. Pelo meio demasiada ironia.

A tecnologia que mudou o Mundo, e à qual é feito o elogio neste evento, é a mesma que é atacada. O público aplaude a investida, mas amanhã continuará a sua vida indiferente à invasão da privacidade e aos abusos dos gigantes tecnológicos.

Já Paddy Cosgrave, o fundador da cimeira, voltará a recorrer ao Facebook, ao Google e à Amazon para promover o seu negócio e, nos intervalos, vender mais camisolas de malha por 700 euros. As questões levantadas sobre espionagem, privacidade e a falta de segurança digital são pertinentes, mas já merecem mais ações do que reflexões.

E a legitimidade de quem faz as denúncias também é discutível. Edward Snowden, o cabeça de cartaz da edição deste ano da Web Summit, apontou o dedo aos gigantes tecnológicos e aos governos. Mas quando um ex-espião CIA está refugiado em casa de um outro ex-espião da KGB, deixa sempre suspeitas. É verdade que o homem que revelou o sistema de espionagem em massa dos EUA já criticou abertamente o Governo e o presidente russo.

Mas o que o leva a ser um "troféu" nas mãos de Vladimir Putin, o líder do país acusado de ter interferido nas eleições presidenciais norte-americanas favorecendo Donald Trump e prejudicando Hillary Clinton, recorrendo a sofisticadas técnicas de ciberguerra?

Um dado é certo: os "denunciantes" continuam a ser uma chatice para os políticos, incluindo para o ministro da Economia e presidente da Câmara de Lisboa, que esperaram pelo fim da intervenção de Snowden para subir ao palco e inaugurar o evento, não fossem criar algum incidente diplomático. Uma pequena ironia, como a que foi Portugal ter dado tantos ouvidos a um pirata informático norte-americano e ter ainda escutado tão pouco o pirata informático português do momento.

*Diretor-adjunto

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