Opinião

Greves: autoridade não é arrogância

Greves: autoridade não é arrogância

1 - Independentemente do desfecho da greve dos motoristas de combustíveis, este conflito vai ficar como um marco para a história das lutas sindicais. Não tanto pelos ganhos e perdas das partes. Mas sobretudo porque marcará uma mudança de atitude coletiva perante as greves, nomeadamente as que são organizadas por sindicatos independentes.

Não fora a greve de abril passado promovida pelo mesmo sindicato e poucos cidadãos teriam a perceção do impacto social e económico que a atividade destes trabalhadores tem nas nossas vidas. Sobretudo porque, em bom rigor, deles depende o funcionamento do sistema sanguíneo da economia e do país em geral.

2 - Ainda recordamos os efeitos políticos do bloqueio da Ponte 25 de Abril, no final do reinado cavaquista. Da mesma forma que ninguém ignora o impacto dos bloqueios das autoestradas por essa Europa fora, ou a violência dos coletes amarelos em França. Felizmente, entre nós, tudo tem sido bem mais pacífico.

Mas no rescaldo desta greve, tem que ser feito o balanço de perdas e danos, riscos e ameaças. E esta é uma oportunidade de reflexão para toda a classe política, e bem assim para trabalhadores e empregadores. Os cidadãos, esses ficarão mais alertados e conscientes do peso que certas profissões têm no nosso quotidiano.

3 - Impõe-se, agora, avaliar a atuação dos governantes. Os atuais ou os futuros. Neste caso concreto, dir-se-á que a ação do Governo tem sido eficaz, mas não eficiente. O país não paralisou, mas ficou em alta tensão. Os fins foram genericamente atingidos, mas os meios foram desproporcionados.

António Costa procurou converter o limão em limonada. E conseguiu-o, pondo a nu o seu estilo pouco oculto de governação. Ficou claro que o primeiro-ministro confunde demasiadas vezes autoridade de Estado com arrogância de Estado. E isto é insuportável, sobretudo quando se apoia na sua gigantesca máquina de propaganda.

Professor universitário e investigador do CEPESE (UP)

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