Opinião

Uma governação desconchavada

Uma governação desconchavada

1 - A segunda vaga da pandemia chegou em força. E como aqui foi escrito em agosto passado, o Governo não tem perdão se a rede hospitalar entrar em rutura perante a necessidade de internamentos de infetados em massa.

Ora, o crescimento galopante de doentes covid está a colocar os portugueses à beira de um ataque de nervos. Ninguém imagina o estado a que podemos chegar até ao final do ano.

É público e notório que a população tem fortes dúvidas sobre a resposta do SNS. E por isso, o Governo já anunciou que, se for necessário, recorrerá à rede hospitalar privada e social. Mas as contradições de discurso entre os atores políticos e os profissionais de saúde são gritantes e assustadoras. Entramos na fase do passa-culpas, e a confusão é completa. Neste quadro, não tardará a instalar-se o pânico generalizado.

2 - Se o quadro da pandemia não confere o mínimo de tranquilidade e segurança aos cidadãos, a governação do país dá sérios sinais de verdadeiro desconchavo. Depois de quatro anos de geringonça, o atual mandato de António Costa carateriza-se pelo esbracejar permanente, num ziguezaguear contínuo, onde ora apela aos partidos da Esquerda para um novo acordo, ora ameaça com uma crise política.

A verdade é que BE e PCP, sem se comprometerem, já conseguiram a proeza de forçar o Governo a apresentar um Orçamento considerado o mais à esquerda das últimas décadas. E continuam a apresentar exigências que querem ver introduzidas na proposta governamental em sede de debate da especialidade. Ou seja, a fatura é cada vez mais pesada, e tudo indica que o Governo vai continuar a ceder.

3 - E assim chegamos a um país espartilhado onde quase metade dos cidadãos não paga um cêntimo de impostos sobre o rendimento, e a outra metade suporta integralmente a fatura do IRS. Um país onde metade dos cidadãos ativos não sofre qualquer quebra de rendimentos com a pandemia (funcionários públicos e reformados), e outra metade regista brutais reduções nos seus salários.

Chegamos a uma situação onde milhares de empresas estão à beira da agonia, e o setor público absorve centenas de milhões de euros de ajudas e subsídios. Um país onde a máquina administrativa do estado continua maioritariamente em "teledescanso", e o setor privado desespera sem esperança nem futuro. Em conclusão: depois de quatro anos de geringonçada, caminhamos para quatro anos de desconchavo governativo.

Professor universitário e investigador do CEPESE (UP)

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