Opinião

Dinâmica das cidades não pode parar

Dinâmica das cidades não pode parar

Todos nos recordamos do que eram a maioria das nossas cidades há uns anos. Cidades com centros urbanos desertos ou com uma população envelhecida, votados ao abandono e em progressiva degradação. A riqueza que os diferenciava, na maioria das situações já existia. Porém, eram cidades desinteressadas, porque pouco ou nada faziam para alterar o estado em que se encontravam e desinteressantes, porque eram incapazes de captar a atenção das suas gentes e dos forasteiros. É notório que nos últimos anos esta é uma situação que se tem alterado progressivamente. Alavancado no turismo e no interesse demonstrado pelos investidores estrangeiros, o nosso imobiliário e com ele as nossas cidades ganharam uma nova dinâmica e renovadas centralidades. Esta é uma realidade indesmentível e estou certo que todos concordamos, quando afirmo que a preferimos, quando comparada com o "marasmo" que caraterizava a anterior situação.

Neste momento e depois de o Governo ter repetidamente afirmado - e agora materializado na sua orgânica - a importância da habitação, é essencial a definição de uma política estratégica de desenvolvimento da cidade como um todo, assumindo o espaço urbano nas suas múltiplas dimensões, como polo de crescimento e centro mobilizadores do conhecimento, da ciência, da cultura e do lazer. As cidades portuguesas concentram hoje a maioria da população, das atividades económicas e da riqueza. Representam, por isso, o maior potencial para a dinamização do crescimento económico, do emprego, da competitividade e da inovação. Esta não é uma particularidade do nosso país. Veja-se que, na Europa, 75% da população vive nas cidades, sendo estas responsáveis por 80% do consumo de energia e por cerca de 85% do PIB europeu. Verifica-se mesmo que as 600 maiores cidades respondem por 60% do Produto Interno Mundial.

Porém, simultaneamente, é aqui que se verificam os mais complexos problemas ambientais e fenómenos de exclusão e polarização social. Importa, por isso, procurar um modelo de desenvolvimento territorial mais sustentável e orientado por e para objetivos concretos. As acessibilidades e infraestruturas, a oferta habitacional, a segurança, a saúde, educação e os equipamentos sociais, o património histórico e cultural, o comércio e os serviços, a restauração e a capacidade hoteleira e as oportunidades para os residentes. Gerar e gerir vantagens comparativas que nos permitam captar investimentos e recursos externos.

Muito se tem falado a respeito do alojamento local. É verdade que estão hoje registados 47 975 estabelecimentos em todo o país, dos quais 21 142 no Algarve, 9169 em Lisboa e 3927 no Porto. Este é, pois, um fenómeno ainda muito localizado e que apenas representa 6% do arrendamento tradicional, num país que é o segundo, na Europa, com menos habitações arrendadas. Por seu turno, é uma realidade que tenderá a ajustar-se às necessidades, à medida que sejam disponibilizadas as unidades hoteleiras que estão projetadas. A reabilitação urbana é, naturalmente, parte imprescindível neste processo. Há, pois, que a perspetivar de um modo integrado, tendo em vista alcançar objetivos que se sobrepõem ao somatório de cada uma das intervenções de reabilitação. Pensar a reabilitação urbana, já não é falar só da recuperação física do património construído. A Europa comunitária já o reconheceu e evoluiu para outro paradigma. Promoveu a reabilitação do seu edificado e assume agora a regeneração das cidades, enquanto fator de competitividade e de desenvolvimento coletivo. O turismo, o comércio, a indústria, a logística, entre muitas outras atividades, exigem mais e melhor planeamento urbano e uma visão correta e inclusiva do território, das cidades e do próprio imobiliário. Este é um ativo que tem de ser valorizado.

*PRESIDENTE DA CPCI

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