Opinião

A insustentável leveza da sustentabilidade

A insustentável leveza da sustentabilidade

Tem sido um assunto recorrente nos debates desta campanha. O meu amigo Miguel Pedrosa Rodrigues pôs o dedo na ferida num texto que escreveu recentemente e que aqui uso com as adaptações que considerei pertinentes, com todo o prazer e uma vénia grande.

Na tentativa de que todos percebamos a insustentável leveza com que se anda a discutir a sustentabilidade.

De todo o lado, seja em conversas sobre a indústria, sobre o quotidiano ou sobre o que queremos para os nossos filhos, o conceito de sustentabilidade é central aos pontos que cada um quer fazer nessas conversas.

Uns orientam o seu discurso em torno da ideia de que o uso dos recursos atuais do planeta com o intuito de satisfazer necessidades de hoje, imediatas, não pode comprometer a nossa capacidade de satisfazer as necessidades das gerações futuras - uma espécie de responsabilidade ambiental, donde depois saiu a economia circular.

Esta resposta consiste essencialmente na ideia de que os produtos e serviços de que dispomos, os quais foram produzidos recorrendo à utilização de recursos naturais, irão no final da sua vida útil retomar o seu lugar na natureza, ou de qualquer outra forma com menor impacto ambiental. Outros orientam o seu discurso em torno da ideia de que o impacto do produto nas sociedades onde é produzido é relevante à apreciação que se faz do produto em si, ou seja, o ser humano que produziu o produto é colocado no centro da equação. Se nos pusermos no lugar do consumidor médio, todo este discurso sobre o que é a sustentabilidade ou o que é um produto sustentável é essencialmente um discurso longo, técnico e muito aborrecido, que a ser feito com rigor vai levar a que nenhum consumidor o queira ouvir.

No entanto, do lado das marcas e das cadeias de fornecimento, é aceite por todos que optar por não ter um discurso sobre este tema é um risco que não pode ser assumido - há portanto que dizer qualquer coisa, nem que seja dúbia, sem rigor, ou até mesmo uma inverdade. Foi desta forma que chegamos aos dias de hoje em que a sustentabilidade é essencialmente comunicada com um jogo de espelhos, e o pior é que a mensagem começa já a ser dominada por players que muito deixam a desejar relativamente ao seu desempenho nesta área.

E como cereja no topo do bolo, o consumidor aparenta estar confuso. Um estudo internacional que perguntou "O que, na sua opinião, define um produto de moda sustentável?" revelou que aproximadamente 80% dos consumidores indicaram não ter informação suficiente sobre moda sustentável, e não a têm porque na verdade ela não existe.

*Empresário

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