Opinião

A privatização do espaço público

A privatização do espaço público

Nenhuma pandemia é coisa boa. Mas um otimista incorrigível como me gabo de ser pode, nem que seja apenas por um dia, imaginar que nem tudo foi mau.

O que nos afastou pode, afinal, estar a aproximar-nos. Que era aliás o que nos prometiam muitos dos slogans que nos tentaram animar nestes últimos tempos.

Da mesma forma que nos afastou uns dos outros, a pandemia parece ter-nos aproximado das nossas comunidades. Ou pelo menos mudou o nosso olhar sobre a comunidade que nos rodeia.

De alguma forma, mais ou menos forçada, os vizinhos voltaram a conhecer-se e até a trocar bolos e favores. São tantas as vezes que agora se encontram, que a conversa meteorológica por si só já não chega. Regressamos à padaria do outro lado da rua onde, passado pouco tempo, a funcionária já sabe o nosso pedido de cor e voltamos a pisar as calçadas dos arredores de casa para os tão aclamados passeios higiénicos de fim de semana.

De repente, forçados pela necessidade de manter os contactos no exterior, voltamos a ver jardins públicos cheios de crianças. Acolitadas pelos pais que, entretanto, já fazem conversa sem ser só à volta dos filhos. Voltamos a reparar na nossa vizinha que, pela pinta, tem andado mais cabisbaixa e, sabe-se, num doce sabor de regresso a casa, que os donos do restaurante da rua abaixo estão a passar por dificuldades e talvez fosse simpático reforçar as encomendas.

O espaço público está a recuperar a alegria antiga, agora que foi devolvido às pessoas. Mas não às mesmas de sempre. Agora contam aquelas que de tanto mudarem, parecem outras. Dantes passavam apressadas sem lhes conhecerem o nome nem desfrutarem do seu encanto. Distraídas do espaço. Apenas fixadas no lugar onde metodicamente estacionavam o carro, sem querer saber nem do espaço nem das pessoas que o habitavam. Agora, rua acima e rua abaixo, já conhecem o nome da senhora que está à janela e lhes deu o bom-dia. Falta pouco para começarem a saber o que faz ela à janela todos os dias e sentirem a sua falta no dia em que ela faltar à chamada.

Este novíssimo sentido de pertença a uma comunidade local (mesmo desterrados no meio de uma cidade impessoal) foi trazido pela pandemia. Para além de muitos e bons exemplos de iniciativas solidárias que se manifestaram durante este período ao longo de todo o país - temos agora o reconhecimento da apropriação do espaço público. Fica a esperança que ao usufruírem mais dos espaços públicos, os portugueses passem também a melhor preservar esses mesmos espaços. Como cantava Caetano Veloso "quando a gente gosta é claro que a gente cuida" e quem sabe a pandemia não dará também um ajudinha para que as cidades e os seus espaços públicos fiquem mais bonitos e cuidados.

PUB

* Empresário

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG