Opinião

A ternura dos 40

Nesta semana é quase impossível não escrever sobre o 25 de Abril de 74. Acabadinho de chegar à idade da ternura! Sobretudo para uma pessoa como eu, que se gaba de poder dizer que o 25 de Abril de 74 foi a única coisa que mudou a minha vida independentemente da minha vontade. Explicando melhor, esta mudança não foi contra a minha vontade, só que não foi graças à minha vontade, que era um moço de 14 anos.

Há que dizer que nunca mudei de clube, mas tirando isso, já mudei quase tudo na minha vida e ao longo dela. Mudei de escola, mudei de curso, mudei de amigos, mudei de cidade, mudei de emprego, mudei de profissão, mudei de agência de viagens, mudei de banco, mudei de rua, mudei de marca de roupa preferida, mudei de desporto como praticante, mudei de carro, mudei de casa, mudei de autores preferidos, mudei de viagem dos meus sonhos, mudei de filme de que mais gosto, mudei de comida favorita, mudei de cantores que me emocionam, mudei de rádio, mudei de jornal, mudei de marisqueira, mudei de canal de televisão, mudei de música favorita, mudei de amores, muito e até mudei de colaboradores, pouco.

Em todas estas mudanças há uma coincidência transversal: todas elas foram mudanças operadas e determinadas pela minha vontade. É por isso que o 25 de Abril de 74, 40 anos depois, continua a ostentar esse título especial e inovador de que foi capaz de mudar a minha vida sem que isso tivesse dependido da minha vontade. Na verdade faltou-me dizer, talvez, que ao longo destes 40 anos também fui mudando de ideias (e até de ideais...) e não digo mudando, mas fui evoluindo nos valores e nas suas formas de concretização. Apesar destas ligeiras mudanças e evoluções nunca mudei de lado na política. Aos 14 anos era conscientemente um jovem de Direita e 40 anos depois continuo a ser um homem de Direita. Devo dizer que já nos meus tempos de militância da Juventude Centrista me incomodava o facto de Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa terem sido obrigados a inventar um "partido do Centro", o CDS, para fundarem um partido de Direita. Nessa altura e apesar do 25 de Abril ter instaurado a liberdade de expressão e a democracia pluripartidária, existia a convicção forte de que esses valores da liberdade e da democracia "e por arrasto o 25 de Abril" eram um exclusivo da Esquerda. Curiosamente, até da Esquerda antidemocrática, que nos anos que se seguiram a 74 tudo fez e tudo tentou para restabelecer nova ditadura, agora de sinal diferente.

Mas há 40 anos, tendo em conta a pesada herança do regime anterior e vistas as coisas a esta distância, no fundo, até se percebe que tenham sido cometidos exageros desta natureza. Agora, nos dias de hoje, 40 anos volvidos, não se aceita e é até ridículo, que se confunda o 25 de Abril, a liberdade e a democracia com a Esquerda mais ortodoxa ou mais folclórica.

Embora sempre tenha pensado escrever a crónica desta semana com o pensamento nestes 40 anos do 25 de Abril, escolhi este ângulo de ataque na segunda-feira, à noite, por acaso, durante o "Prolongamento", o programa em que participo na TVI24. Estando eu de cravo na lapela e boina revolucionária, a realçar o meritório comportamento e o palmarés inigualável do F. C. Porto nos últimos 40 anos, salientando que o meu clube é de longe o campeão em título do Portugal democrático, ouvi o meu colega Eduardo Barroso, conhecido sobrinho do ex-presidente Mário Soares e socialista confesso, dizer que apesar de eu ser de Direita tolerava a minha homenagem ao 25 de Abril. Na altura nem sequer dei grande importância ao caso e estou convencido que o Eduardo Barroso é dos que pensam que a liberdade e democracia podem e devem conviver com Esquerda e Direita, mas ficou-me o alerta de que ainda haverá gente que 40 anos depois continua a pensar que o 25 de Abril, a democracia e a liberdade são um património de uso exclusivo da Esquerda política e partidária. Como aliás às vezes parece que alguns militares sobreviventes do MFA gostariam que a comemoração desta data também fosse seu património exclusivo, como se a democracia e a liberdade que hoje temos fossem apenas obra do seu golpe militar de há 40 anos.

Não são.