Opinião

Agricultar é o que está a dar

Agricultar é o que está a dar

1 Recordar o passado... Há 40 anos, um ano depois do 25 de Abril de 74, aos três D prometidos (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver) sabemos hoje que poderíamos ter acrescentado um quarto D, de desertificar! Empurrados pela enorme abertura de espírito da época e atraídos pelas luzes das cidades, mas também arrastados pelas sucessivas políticas centralistas dos governos que se seguiram à restauração da democracia, assistimos a um êxodo sem precedentes do campo para a cidade. Apesar de rapidamente ter entrado no léxico político um outro D, de descentralizar, a verdade é que este último D, tal como acontece no abecedário, nunca foi capaz de ultrapassar o P de promessa.

Claro que todos aqueles que nos "venderam" a Europa e a adesão à então Comunidade Económica Europeia, vulgo CEE, como o nosso lugar natural, a nossa "cadeira de sonho", não estão inocentes deste sangue. Neste "pacote" incluo os portugueses europeístas e federalistas militantes, mas também sou obrigado a não esquecer os líderes dos principais países europeus que ajudaram a criar em Portugal e nos portugueses a convicção de que a entrada nesse clube de ricos nos tornaria ricos também, sem outras grandes preocupações. Por isso, trabalhar a terra deixava de ser uma prioridade, sendo que aliás se popularizou a ideia que era abandonando a lavoura e algumas das culturas tradicionais que se ganhava mais dinheiro, já que a Europa pagava para isso.

40 anos depois, o arrependimento dos sobreviventes dessa gesta já não tem grande remédio, mas há sinais iniludíveis de que as novas gerações perceberam o logro em que caíram muitos dos seus pais e avós e estão prontas para empreender o caminho de retorno.

2 ...Na Aldeia do Futuro

A sociedade portuguesa vive hoje um impasse peculiar. Tem uma geração ativa com terras, casas e bens no território rural que recebeu de seus pais.

Esta população ativa que migrou para os centros urbanos está preocupada em manter os seus empregos e não deteriorar o seu nível de vida.

Hoje, esta geração recebe multas por não limpar ou desmatar os seus terrenos, notificações para pagar IMI de prédios que nunca chegará a usar.

Com esforço puseram os seus filhos a estudar. Hoje, esses filhos, licenciados ou mestres, não encontram em Portugal as oportunidades prometidas e, por isso, os que podem emigram!

Hoje, continuamos pois a "importar" o desemprego e a desertificação do território e a "exportar" os nossos melhores talentos.

Para tentar mudar este paradigma, a Agavi, uma associação sem fins lucrativos que visa essencialmente promover a gastronomia, os vinhos e o lifestyle genuinamente nacional, criou um movimento a que chamou Agricultar.

Agricultar com sustentabilidade, promovendo um ecossistema qualificado. Um movimento que quer que os portugueses percebam que a terra é deles, é boa, não está perdida, está a crescer. Um movimento que mobilize uma nova geração que diga que quer mover o solo, regar projetos, semear qualidade, desenhar com visão.

O sonho é que este movimento contamine o país de lés a lés e não deixe que nem mais um dos seus talentos abandone Portugal. Para isso lança um desafio simples dirigido a esta nova geração de empreendedores, que consiste em passarem a conjugar diariamente o verbo agricultar.

Este novo movimento concretiza-se também num novo paradigma de desenvolvimento e de ocupação do mundo rural, batizado de Aldeia do Futuro, que é hoje apresentada em Baião, a primeira "base avançada" deste projeto que quer mobilizar o país.

Um paradigma assente na mudança: dos agricultores, qualificando e dignificando as pessoas e rejuvenescendo o tecido empresarial; do território, apostando nas potencialidades, na reabilitação de ecossistemas limpos e sustentados, da terra, do turismo, da história e da cultura portuguesa; dos produtos, gerando negócios, fomentando empreendedorismo, assente num esquema de capacitação e valorização que repete as melhores práticas dos países europeus e mundiais mais avançados neste setor. Sendo suspeito, porque sou amigo dos principais animadores deste projeto, sinto claramente que esta "Aldeia " é um projeto de futuro e com futuro.