Opinião

As partes é que somam

As partes é que somam

Em tempos de Euro, já sei que é mais bonito falar só de Portugal inteiro. (Só que, como dizia Lucas Pires, também eu escrevo no JN, não estou num concurso de misses).

Falar de Portugal como um todo que vive da soma das partes do seu território. Aliás, para muitos, Portugal não conseguiria sobreviver sem essa soma. Uma soma sempre a dar-se e sempre a fazer-se, mesmo com menosprezo ou até desprezo pela individualidade de cada uma das partes.

Estes muitos são aqueles centralistas que gostam do "status quo", que convivem muito bem com ele, porque as mais das vezes vivem dele... ou à sombra dele. São todos aqueles que sentem logo comichão nas mãos, tipo alergia, quando alguém murmura essa palavra regionalização. E até sofrem chiliques se alguém mais moderado evoca de uma forma suave a necessidade de descentralizar os serviços do Estado central.

Só que há vida para além do Euro. Como tem que haver cada vez mais vida para além da pandemia! Devo, aliás, dizer que foi isto mesmo que percebi do que disse o presidente. Quando afirmou que com ele não recuaríamos mais, o que tanta polémica causou, até em políticos, que deviam perceber melhor do que ninguém o "politiquês". Claro que o prof. Marcelo não poderia estar a dizer que, por exemplo, a sua Lisboa não iria recuar nas regras do plano de desconfinamento se os seus números ultrapassarem as linhas vermelhas, como já aconteceu com Odemira, Golegã e Arganil.

Também está muito na moda dizer que não podemos deixar ninguém para trás, mas, aqui e agora, deixemos para trás a pandemia e o Euro.

Estive no início de junho por terras algarvias. Sempre de máscara posta, quando a isso me obrigava a lei. Num desses momentos, num corredor do hotel em que fiquei, cruzei-me com uma das empregadas que andavam a pôr cada quarto num brinco. Uma mulher feita, a rondar os 50 anos. Talvez porque soubesse que lá estava reconheceu-me apesar da máscara e meteu conversa comigo. É a forma como o fez que interessa e originou este texto.

"Ó sr. Serrão, já esteve na Zambujeira do Mar? É que eu sou da Zambujeira!". O que lhe respondi não conta. O que conta é a memória que eu guardo daqueles olhos bonitos, de tão abertos. Daquela felicidade estampada no rosto, que nenhuma máscara foi capaz de esconder. Daquele orgulho indisfarçável de ter a oportunidade de dizer que era uma filha de Zambujeira.

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Agora que me venha alguém dizer que Portugal só vale pelo todo! As partes é que fazem o todo.

*Empresário

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