Opinião

As sete vidas das moratórias

As sete vidas das moratórias

"A vida do dinheiro", que todos podemos ouvir na TSF e ler aos fins de semana no "Dinheiro Vivo", contou esta semana com uma interessante entrevista a Ricardo Mourinho Félix, atual vice-presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI) e antigo secretário de Estado das Finanças de Mário Centeno.

O tema central desta "Vida do dinheiro" foi a vida das moratórias que têm sido um instrumento decisivo para apoiar as empresas e a economia nestes tempos de pandemia. A primeira noção, que se calhar em Portugal nem todos têm, é a de que estas moratórias que envolvem as empresas devedoras, os bancos credores e garantias do Estado, não são uma invenção nem um fenómeno nado e criado em Portugal. Para quem não sabe ou não está familiarizado com esta situação excecional, as badaladas moratórias criaram-se, aconteceram e mantêm-se em todo o espaço da União Europeia. Isso implica, como Mourinho Félix também deixou bem claro, que a conversa e as decisões que vierem a ser tomadas para o fim das moratórias estão sujeitas ao contexto europeu.

Como se percebe não é imaginável que em Portugal se defenda para "amanhã" o fim das moratórias, enquanto nos outros países europeus elas se mantenham sem fim à vista. Eu diria que esta evidência por um lado me descansa, mas por outro me preocupa. O lado que me descansa é saber que nunca será um qualquer iluminado ou opinion maker em Portugal que terá algum dia o poder de determinar o fim das moratórias, só porque passou uma noite má e acordou alvoroçado. A parte que já me preocupa um bocadinho é que as empresas e a economia portuguesa no contexto europeu estarão sempre mais carentes de um apoio deste tipo do que a maioria das outras economias europeias com uma pujança desde sempre superior à nossa.

Sem precisar de ter nenhuma cátedra em economia e baseando-me "apenas" nas muitas conversas que tenho tido com dezenas de empresários, industriais e responsáveis da Banca nacional, eu diria que estas moratórias podem não vir a ter sete vidas, como os gatos que, como é sabido, escapam muitas vezes da morte quando já ninguém dá nada por eles. Mas sou capaz de não errar muito se prever que não fará nenhum sentido acabar com as moratórias em vigor, sem que pelo menos tenham decorrido seis meses depois do regresso à normalidade da atividade das empresas que a elas recorreram.

Empresário

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