Opinião

Dragão ou pombinha?

Uma das linhas de que mais me orgulho no meu "curriculum vitae" é aquela onde me anuncio padrinho da Casa do F. C. Porto da Trofa. Os padrinhos desportivos são o ex-futebolista Domingos e a ex-atleta Fernanda Ribeiro, mas o padrinho da sociedade civil é este vosso amigo que aqui escreve e assina.

Quem me convidou para estas honrosas funções foi o meu amigo e portista doente Diamantino Silva, que também faz questão de não me deixar ser um padrinho desnaturado, "obrigando-me" a comparecer em várias das muitas iniciativas de caráter cultural ou festivo que esta Casa do F. C. Porto promove e organiza com um frenesim inquestionável.

Aqui há uns anos, que tenho dificuldade assim de repente em precisar sem erro, porque foi um ano em que o FCP se sagrou campeão nacional, participei num debate sobre a época vitoriosa do meu clube e saiu-me uma expressão que ficou tão famosa no seio dos portistas da Trofa, que sempre me falam disso em cada encontro que temos. Recordo-me, por exemplo, de me ter cruzado com um grupo destes dragões da Trofa nas cercanias do estádio de Dublin, na Irlanda, onde vencemos a Liga Europa e de eles me terem interpelado com esse grito de que "nós somos dragões, dragões".

Já tenho dificuldade em recuperar o contexto da época, mas o significado deste dito vive para além dessa conjuntura. O que eu defendi nessa noite clubística na Trofa é que os dragões não são todos iguais: há os dragões, dragões, e os dragões pombinha. Explicando de seguida que os dragões, dragões, os puros, são aqueles adeptos do F. C. Porto para quem o F. C. Porto está sempre em primeiro. Sempre em primeiro lugar... mesmo quando não está no primeiro lugar! Os dragões pombinha são os outros, espero eu que uma minoria, que gosta do F. C. Porto, mas também gosta a seguir de muitas outras coisas, como a Seleção ou o futebol em abstrato.

Dando exemplos, um dragão, dragão quer que a nossa equipa ganhe todos os jogos, a bem ou a mal, com exibições de sonho ou a roçar o medíocre, sendo que as nossas vitórias são sempre justas e nunca à justa. O pombinha aceita discutir a justiça do resultado, o mérito do adversário, os critérios da arbitragem e por aí fora.

Um dragão, dragão nunca acha que pode ser mau vencer tudo e no ano a seguir ao penta sonhava com o bitri e ficou furioso porque ele nos escapou. Enquanto um dragão pombinha se resignou com esse campeonato que nos foi espoliado e até defendeu que era bom para o futebol português haver outro clube a ganhar, depois de cinco anos seguidos de triunfos azuis e brancos.

Um dragão pombinha é sempre pelos clubes portugueses nos jogos das competições europeias, mesmo quando eles são uma espécie de albergue espanhol em que se misturou uma minisseleção sérvia com um contingente de sul-americanos. Já o dragão, dragão é aquele que, como eu , vibrou com os 7-1 de Vigo e ainda esta semana se enfureceu porque os preguiçosos do Paris Saint-Germain fecharam o expediente ainda antes da primeira meia hora de jogo.

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O novo presidente da Câmara do Porto é um portista assumido, que já deu provas do seu "portismo" militante em programas de televisão e nas páginas de jornais, ficando até conhecido por se ter levantado a meio de um programa em que a conversa fedia. Rui Moreira ainda este fim de semana em entrevista ao nosso JN se confessou um portista titular de um "dragon seat". Já toda a gente percebeu, como me disseram vários dos portistas com quem falei no meio de uma prova de fumados e dos vinhos com que me deliciei no Mercado de Sabores que encheu literalmente o Edifício da Alfândega no passado fim de semana, que com o novo presidente vamos poder festejar os títulos na Câmara da nossa cidade.

Embora a minha convicção seja inabalável, eu fui dizendo que sim, mas que primeiro era preciso ganhar esses títulos e só depois é que pensava na festa, mas esta possibilidade e o que Rui Moreira tem afirmado a este propósito, também tem a ver com estas duas raças de dragão. Um dragão, dragão que chega a presidente abre as varandas da Câmara e prestigia a festa com a sua presença, homenageando quem ganhou. Um presidente pombinha manda abrir as portas da Câmara mas depois refugia-se no meio da maralha, com medo da sacrossanta promiscuidade. Pode passar a noite em cânticos ou aos pulinhos, mas nunca dirão dele que se associou à vitória do principal clube da cidade.

Embora pombinha na campanha, aposto singelo contra dobrado como vamos ter um presidente dragão, dragão na primeira oportunidade. Mesmo que não aceite levantar a taça!

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