Opinião

Filho do Litoral, irmão de sangue do Interior

Filho do Litoral, irmão de sangue do Interior

Porque ninguém escolhe onde nasce, sou português, filho do Litoral. Tenho a certeza de que é por causa disso que dificilmente conseguiria ser feliz a viver num sítio que não tivesse o mar por perto.

Mas sendo filho do Litoral, sinto-me também irmão de sangue do Interior e tenho amigos que nascidos no Interior, no Interior foram e são muito felizes. Tenho tanto a certeza do que digo e do que sinto, que julgo estar em condições de garantir que se tivesse nascido, por exemplo, em Viseu ou na Mêda, seria igualmente feliz a lá viver.

Claro que dito isto, que tem a ver com as circunstâncias do nascimento, não consigo esconder que é muito mais difícil conseguir ser completamente feliz no Interior do que no Litoral. Como também reconheço que para muita gente (por acaso, não para mim) existem muito mais e melhores condições objetivas de felicidade em Lisboa do que no resto do país, especialmente no Interior. Como ainda ontem de manhã dizia o meu amigo Júlio Magalhães aos microfones da rádio Observador, referindo-se a mais uma publicação do autointitulado "Movimento pelo Interior", é impressionante como é que o alerta lançado há três anos aparentemente sem que ninguém o criticasse, volvidos três anos nenhuma ação positiva foi capaz de induzir.

Uma das virtudes da regionalização é exatamente a sua potencialidade para corrigir alguns dos defeitos intrínsecos do regime democrático. Como é natural, sendo a democracia um regime que assenta no poder da maioria, muitas vezes os países sofrem entorses exatamente porque as minorias não conseguem fazer valer a sua vontade. Percebe-se por isso que os governos e os poderes centrais agora da Esquerda, como já foram da Direita, sejam muito mais sensíveis às reivindicações e necessidades da esmagadora maioria dos portugueses concentrados nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto (a que se junta em segunda linha o nosso imenso Litoral) do que às das populações que apesar de ocuparem uma área muito mais vasta do território, representam uma minoria de votos no todo nacional.

É por isso que sempre me sinto indignado quando ouço as vozes da capital a atacar a regionalização com o argumento de que só serve para criar tachos. Curiosamente, não me lembro de nenhum português do Interior que lá tenha nascido e lá continue a viver achar que ter o poder de decisão dos investimentos públicos mais perto da sua casa seja propriamente um tacho que possa perturbar as finanças públicas.

*Empresário

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