Opinião

A novela do Infarmed

A novela do Infarmed

Não tenho por hábito abordar duas vezes o mesmo tema nestas minhas crónicas do nosso JN. Vou abrir uma exceção porque o assunto e tudo o que o tem rodeado também se tem revelado verdadeiramente excecional. Refiro-me à autêntica novela em que se transformou a decisão de transferência dos principais serviços do Infarmed para a cidade do Porto.

É absolutamente fantástico que tenhamos assistido nos últimos 50 anos a milhares de transferências de muitos centros de decisão ou de poder relevantes de todo o país para a capital, sem nunca ter sido "produzida" uma novela, por pequena que fosse. Agora, no primeiro caso relevante de que me lembro em que se aventa a hipótese de transferir um instituto público da capital para a segunda cidade do país, levanta-se um escarcéu tal e cria-se um drama de tamanhas proporções que até parece que está a ser posto em causa o futuro da nação por causa dessa operação.

Não conheço um único caso daqueles exemplos mais evidentes de centralismo que tenha sustentado a sua criação, justificado a alteração do local ou explicada a manutenção na capital em quaisquer pareceres, conclusões de grupos de trabalho, auditorias, inquéritos ou referendos. Bem ao contrário, neste caso do Infarmed, o que mais há são estudos de peritos, relatórios de comissões especializadas, inquéritos aos funcionários, bitaites sindicais e carinhos corporativos de pôr a chorar as pedras da calçada. Já agora ficamos a saber que estes diligentes funcionários que na sua maioria têm demonstrado enorme receio e preocupação nesta deslocalização, são provavelmente os mesmos que permitem uma das conclusões que cito de seguida: "O Infarmed apresenta um nível demasiadamente elevado de absentismo (superior a 7 e 10,6% em 2016) e igualmente valores excessivamente elevados de rotatividade dos recursos humanos (superior a 40% no geral e até a mais de 60% em algumas direções) sendo que estes dois fatores condicionam significativamente a produtividade da sua operação".

Já numa das conclusões do estudo que o JN publicou, ficou estabelecido que o cenário da deslocalização que apresenta menor risco é o que "contempla a construção de instalações e a implementação e desenvolvimento em paralelo de programas formativos a novos quadros, permitindo assim minimizar riscos resultantes da indisponibilidade dos recursos humanos para acompanhar a deslocalização". Conclui-se ainda que a aplicação das propostas de melhoria que decorrem deste processo se apresenta como "uma oportunidade para se corrigirem as deficiências organizativas e a desadequação dos processos praticados no relacionamento com as partes interessadas e dessa forma se obterem ganhos significativos de eficiências/eficácia".

Apesar de todo esse vendaval é fantástico como a generalidade das conclusões conhecidas e de que aliás o JN tem feito grande eco, elencam variadíssimas vantagens e múltiplos efeitos positivos associados a essa programada mudança. Recomendo vivamente a leitura das conclusões destes vários estudos e relatórios, porque foi aquilo que eu fiz e que realmente me animou a voltar a trazer este tema ao convívio dos leitores. Não é preciso ser juiz de um qualquer Supremo Tribunal para perceber de que lado está a razão neste suposto diferendo, mas vou esperar sentado para ver o que vai acontecer. Estamos habituados a aceitar e calar qualquer nova manifestação de centralismo sem que nos sejam explicadas as razões de ser dessas decisões. Com o somatório de todas as vantagens e potenciais oportunidades de melhoria detetadas nesta deslocalização do Infarmed para o Porto, vai ser mesmo uma vergonha nacional se o assunto ficar definitivamente em banho-maria.

EMPRESÁRIO

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