Opinião

No melhor pavilhão cai a nódoa

Na crónica de hoje, entre Lisboa e Monchique, há ventos e ventos, mas também eventos e eventos. Mais ou menos chiques.

No meu regresso ao trabalho na noite de Lisboa (para os mais maliciosos, esclareço que falo do "Prolongamento" da TVI 24) aproveitei o dia de ontem para visitar ou revisitar alguns espaços emblemáticos da capital, por causa de um evento que lá quero organizar em finais do próximo mês de outubro.

Comecei a pesquisa pela zona da EXPO 98, tendo como alvos os pavilhões do Conhecimento, que curiosamente não conhecia e o Pavilhão de Portugal, para muitos a joia desta coroa ribeirinha. O tal da famosa pala de Siza Vieira, que ainda hoje há muita gente que não percebe como é que ela não cai. Depois da famosa pala de Alvalade, nos tempos de Santana Lopes, é a mais famosa pala nacional, na categoria das palas que as pessoas acham que podem cair a todo o tempo, ou não entendem como é que elas se seguram.

Na primeira visita tudo correu superbem e as minhas expectativas foram superadas. Foi muito fácil descobrir a porta de entrada (não se riam se faz favor, que adiante logo perceberão), as senhoras da receção eram eficientes e também simpáticas, o espaço tem contornos surpreendentes e como não se trata de nenhum "panteão" da ciência, quer é a Ciência bem viva na cabeça de todos, tem ótimas condições e grande disponibilidade para acolher eventos de cariz menos científico. Registei-o como boa hipótese.

De papo cheio com esta primeira investida, caminhei até ao Pavilhão de Portugal, percorri os últimos metros corajosamente debaixo da pala e acerquei-me da entrada que tinha utilizado para ir aos últimos desfiles que o Portugal Fashion ali tinha organizado. A porta estava fechada, com ar desmazelado e de que já não se abria há muito tempo. Iniciei então uma viagem de circunvalação à volta do edifício, imaginando que tivessem mudado a entrada. Como sou dos que não têm medo nem vergonha de perguntar o que não sei (há pessoas que nunca perguntam nada a ninguém e passam horas a descobrir um local que estava a 5 minutos...) inquiri um varredor da Câmara que me disse, à boa moda de La Palisse, que o melhor era continuar a dar a volta que logo encontraria a porta. Foi o que fiz, mas debalde. Inacreditável! Em pleno mês de agosto, com Lisboa abarrotada de turistas, Portugal fecha o pavilhão a que deu o nome? Salva-se a pala, que se pode ver de fora... e de baixo, para quem aguenta a pressão, como ela.

Desta minha volta a Portugal, ao seu pavilhão, bem entendido, feita às 11 horas da manhã de ontem, o que vos posso reportar, para além de todas as portas bem fechadas (para mal dos meus pecados) e nenhuma indicação alternativa, é o desleixo generalizado, evidências de que vários sem-abrigo lá se terão acocorado à noite e muito lixo por todo o lado, na antecâmara de um pavilhão que era um luxo de Portugal.

No melhor pano cai a nódoa. Não fui capaz de ter a certeza que esta expressão seja genuinamente portuguesa, mas podia ser, tantas são as vezes que por cá as nódoas aparecem nos melhores panos. Aproveito a deixa para um tema que ontem me queimou as pestanas madrugada dentro. Como é possível que no nosso melhor "pano" algarvio continue a lavrar, 4 dias depois da hora a que escrevo, a única "nódoa" grave da badalada onda de calor, com mais de 1000 bombeiros e não sei quantos meios aéreos e terrestres no combate? Ouço dizer que a culpa é do vento.

Não há machado que corte a raiz deste vento? Suspeito que há ventos que acolhem tempestades.

EMPRESÁRIO