Opinião

Nós homens, já fomos!

Não pode haver caricatura sem algum exagero, mas o povo sabe muito bem que não há fumo sem fogo e neste caso os sinais de fumo são muito claros. Já não são os homens quem põe e dispõe, a seu bel-prazer, na sociedade atual.

Não julguem que escrevo uma crónica nestes termos porque estamos (finalmente) no meio do verão e é a altura habitual para escrever mais disparates do que coisas sérias. Se o tom vai ser de alguma ironia é porque eu acho que uma crónica bem-disposta é sempre preferível e até diria, quase obrigatória, quando o tema se prende com a velha disputa de poder entre os homens e as mulheres. Como alguns se lembrarão sempre fui, sou e serei contra as tentativas ridículas de tentar aumentar a influência das mulheres por lei ou decreto-lei. Tenho o prazer de dirigir, desde o seu número 0 (e já lá vão 35) um jornal especializado na área do têxtil, vestuário e moda, onde têm sido apresentadas dezenas e dezenas de mulheres, jovens e menos jovens, que dão cartas cada vez com mais força na liderança ou em áreas importantes das empresas deste setor. Seria fastidioso enumerar aqui esse autêntico "exército" feminino que manda o que manda, gere o que gere e trata do que trata, não por causa de pertencer ao universo feminino, mas porque tem a competência necessária para essas funções e em muitos casos dá já disso provas há muitos anos.

A Alexandra Abreu, na LMA, a Gabriela Melo, na Somelos, a Conceição Dias, na Sonix, a Clementina Freitas, da Latino, a Manuela Araújo, na Lemar, a Ana Paula Rafael, na Dielmar, a Margarida Pizarro, na Pizarro, a Fátima Antunes, na Lasa, a Virgínia Abreu, da Crispim Abreu, a Ana Sousa, da Flor da Moda, e muitas outras mulheres de garra a que fomos dando o merecido destaque nesta publicação. Mas nem só no têxtil se impõem as mulheres desta estirpe. Quem poderia estar neste rol de caras que foram capas do "T Jornal" é Isabel Furtado, recentemente eleita para presidente da COTEC, e a COTEC é que ficou a ganhar e muito com isso.

Fugindo deste setor e aterrando no grupo das maiores empresas nacionais, onde até há pouco tempo os homens dominavam quase em regime de exclusividade, assistimos à sucessão do Grupo Amorim protagonizada pela filha mais velha do comendador, Paula Amorim, que no escasso tempo que leva de nova timoneira do Grupo, já mostrou a toda a gente que sabe o que está a fazer, o que quer e para onde vai, sem temores por suceder a quem sucede e nenhum preconceito por causa do seu género.

Dito isto, o leitor amigo não há de estranhar que eu tenha lido a notícia surpresa de ontem sem nenhum espanto especial. Se Cláudia Azevedo foi designada para nova CEO do Grupo Sonae só pode ser porque está devidamente preparada para isso e vai certamente ter um desempenho que nada ficará a dever aos fantásticos desempenhos anteriores. São estes exemplos e estas histórias de sucesso que ajudam a criar na nossa sociedade um saudável e natural ambiente de absoluta falta de espanto, quando sabemos de mais uma mulher que atinge o centro do poder ou de decisão económica ou política.

Ainda na semana passada assisti a alguns comentários verdadeiramente estúpidos sobre a forma emocional e descontraída como a presidente da Croácia viveu as peripécias do jogo e se comportou na cerimónia final de entrega das medalhas. É curioso que algumas das pessoas que eu apanhei em risinhos ou nos tais comentários idiotas, eram as mesmas pessoas que eu já vi e ouvi várias vezes a elogiar (e aqui muito bem) todos os momentos de enorme afetividade que o nosso presidente da República tem sabido espalhar pelo país nos melhores momentos e nas maiores desgraças. Não é com leis como a das quotas que um país ou uma sociedade conseguem transformar mentalidades que possam não ver diferenças entre os beijos da Kolinda Grabar-Kitarovic em Modric e os beijos de Macron em quase toda a equipa gaulesa.

EMPRESÁRIO