Opinião

O princípio de Pedro

Presumo que a maioria dos leitores está familiarizada com o significado do Princípio de Peter, mas como presunção e água benta cada um toma a que quer, vou deixar aqui o seu enunciado por via das dúvidas: num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência.

Apesar da evidente semelhança, este princípio de "Pedro" que vem no título da crónica não tem nada a ver com o famoso Princípio de Peter. O Pedro deste princípio do título é o Pedro Santana Lopes e quero desde o princípio desta crónica esclarecer que a razão principal da sua decisão de criação de um novo partido, não tem rigorosamente nada a ver, em minha opinião, com falta de competência. Apesar do que têm dito em contrário alguns dos seus críticos de sempre, não é por ter chegado ao limite das suas competências no PPD/PSD, que Santana Lopes decidiu abandonar o partido. Vou tentar explicar qual é a minha teoria sobre o assunto.

Ainda ontem, em conversa com um amigo, discorríamos sobre a nomeação de um amigo comum sexagenário para um cargo de direção e comentávamos que a sua atuação nesse cargo estava a ser muito mais o que ele sempre tinha querido fazer e muito menos uma lufada de ar fresco, ou uma poção de inovação fervilhante. É por estas e por outras que quando alguém quer contratar uma pessoa para revolucionar o seu negócio, inovar a sua empresa, ou alimentar um desafio novo, não deve escolher uma pessoa com mais de 60 anos. Claro que esta regra tem exceções, que eu aliás conheço várias e não quer dizer que não existam, porque existem, muitas pessoas e muitos profissionais competentes e em plena forma com mais de 60 anos. O problema está até nesses sexagenários altamente competentes e em boa forma, mas que nunca fizeram ao longo da sua vida exatamente tudo o que sempre sonharam. Penso que anda por aqui a razão de ser da decisão do ex-líder do PSD em criar o Aliança.

O novo partido de Santana Lopes tem muito mais a ver com a vontade de cumprir um destino do que com os destinatários da sua criação. Quem acha que Santana Lopes está a fazer o que está a fazer porque quer segurar um lugar de deputado, garantir uma boa reforma ou voltar a ser primeiro-ministro a qualquer transe, na verdade nunca percebeu Pedro Santana Lopes. O princípio de Pedro é exatamente poder ter um partido em que possa fazer, dizer, propor, criticar, imaginar, sonhar... tudo aquilo que sempre quis e que nunca conseguiu completamente, mesmo quando lhe entregaram de bandeja o partido e o Governo.

Ao contrário dos que o criticam e o apelidam de traidor por sair do partido ao fim de 40 anos de militância, a única crítica que eu sou capaz de lhe fazer é exatamente ao contrário, por ter demorado tantos anos para fazer aquilo que sempre quis. Se pensarmos na sua ideologia liberal esta crítica faz ainda mais sentido e deixei para o fim a escolha do nome do novo partido. Não se tratando de uma recordação da Aliança Democrática, nem constituindo um "remake" da Aliança Povo/MFA (nem sequer Povo/PSL) esta Aliança agora fundada só pode significar o corolário da Aliança indestrutível entre Pedro Santana Lopes e o seu próprio destino. Finalmente cumprido.

*EMPRESÁRIO