Opinião

As portas que Abreu abriu

Na última edição do semanário "Grande Porto", a manchete reproduzia uma afirmação do senhor doutor Carlos Abreu Amorim, que em entrevista a este jornal entendeu por bem dizer que Gaia merece mais do que um comentador da bola.

Aferido pelos critérios estreitos do dr. Abreu, eu também sou um comentador da bola. Embora com a atenuante de que Gaia está livre de me ver a presidir à sua Câmara.

Se me limitasse a festejar as vitórias do meu clube nas redes sociais, mesmo chamando magrebinos, em vez de mouros, aos sulistas adeptos dos clubes derrotados, poderia ter a pretensão de ser considerado um intelectual. Uma espécie de Manuel, o Pensador.

Acontece que tendo eu feito parte em tempos de um programa da SIC chamado "Os donos da bola" (é que com este título, nem dá para disfarçar) e sobretudo tendo eu aceitado o convite da TVI 24 para integrar nos últimos dois anos o painel de comentadores do "Prolongamento", devo reduzir-me a esta insignificância de ser um mero comentador da bola.

Aliás, reparando agora nas pessoas que me acompanham neste programa, noto que a mesma coligação que candidata o dr. Abreu a Gaia escolheu para Lisboa precisamente um comentador da bola. Imagino que coerentemente, o dr. Abreu defenda que uma cidade com tantos magrebinos não mereça mais do que um comentador da bola, ao contrário de Gaia que, já percebemos, se por acaso o não vier a eleger presidente, é porque também, afinal, não merecia mais do que um comentador da bola.

Que o dr. Abreu é muito mais que um comentador da bola, disso não restam dúvidas. No dia 29 de setembro logo veremos se o dr. Abreu não será de mais para Gaia.

Existem pessoas que fazem parte de uma elite cada vez mais escassa, que habitam num patamar superior, de onde têm dificuldade em perceber os que se movimentam "downstairs". Gente de parada alta que nunca chega a perceber o esplendor do futebol jogado à flor da relva.

Admito sem dificuldade que o dr. Abreu possa pertencer a este grupo restrito e assim sendo é já de louvar a disponibilidade demonstrada para se sujeitar às canseiras de uma campanha em Gaia e depois ao veredicto popular em que participam pessoas com quem ele nunca se sentaria à mesa, muito menos a discutir a bola.

Devo confessar que nos tempos livres que me deixa a minha atividade de comentador da bola, faço mais alguma coisa e do dr. Seara também tenho ouvido que tem dias em que lá faz uma ou outra coisa, que não comentar a bola.

Imagino que só pessoas que pertençam a esta casta rara do dr. Abreu é que têm capacidade para se desmultiplicarem em várias atividades. Desde logo, não é qualquer pessoa que nas mesmas 24 horas que têm os dias para todos nós consegue defender superiormente os interesses do simpático povo do distrito de Viana do Castelo e simultaneamente inteirar-se diária e afincadamente dos problemas do povo gaiense, de que promete tratar a partir de setembro. Como para além disto ainda consegue encontrar tempo e disposição para se cultivar nas áreas culturais em que se distingue, como a política, a literatura e o Direito, é que é um mistério insondável para um limitado comentador da bola como eu.

Dando provas de uma inteligência superior, o dr. Abreu transportou a sabedoria da política para a sua atitude quotidiana. Conhecedor da teoria da separação dos poderes, o seu percurso é uma aplicação prática da teoria da separação dos saberes. Professor, ensaísta, deputado, bloguista e a caminho de se tornar autarca (quiçá presidente se Gaia o souber merecer...) ninguém apanha o dr. Abreu a armar-se em comentador da bola.

Se um dia o virmos para as bandas do Olival ou do Dragão, podemos estar descansados que não é mais um político a misturar-se com o futebol. É mesmo dos votos que ele andará à procura, porque já sabemos que com a bola, o dr Abreu não quer misturas.

Pedindo desculpa pela falta de humildade na maneira como me dirijo à sua pessoa, gostaria de dizer ao dr. Abreu que ainda bem que não se aventura por essas áreas do comentário da bola. É que no dia em que cedesse a essa tentação, convinha que aprendesse que os golos na própria baliza não ajudam a ganhar campeonatos.

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