Opinião

Aventuras ao jantar

Nos anos 80, menino e moço, comecei a trabalhar como jornalista no "Comércio do Porto". Foi aí que conheci um conjunto de amigos que constituiu a base de um grupo que desde essa época se reúne semanalmente ao jantar.

Tendo em conta a periodicidade quase semanal desses encontros, é fácil concluir que em cada ano jantamos juntos cerca de 50 vezes. Como este grupo já exerce há mais de 30 anos, como diria o Guterres, é só fazer as contas, já teremos feito cerca de 1500 jantares. Destes 1500 jantares, a esmagadora maioria, eu diria cerca de 90%, e voltando às contas cerca de 1350 terão tido como palco os mesmos quatro ou cinco restaurantes de Matosinhos. Nestes jantares, ou não se tratasse de um grupo com muitos jornalistas e comentadores pelo meio, está sempre na ordem do dia a discussão dos principais temas do desporto e da política em geral.

Na semana passada decidimos ir jantar a um restaurante novo e um dos convivas opinou que o facto de jantarmos quase sempre nos mesmos sítios era um sintoma de velhice porque, dizia ele, normalmente os mais velhos não gostam de aventuras ou experiências novas, incluindo nas questões gastronómicas. Acreditando nessa teoria, seria sintoma de velhice, uma espécie de predisposição para comer sempre as mesmas coisas nos mesmos sítios.

Claro que esta opinião não recolheu unanimidade dos presentes e por exemplo no que me respeita, ficaria feliz se este critério fosse verdadeiro porque se há coisa de que eu mais gosto de fazer é exatamente não comer sempre as mesmas coisas, nos mesmos sítios. Nomeadamente em termos gastronómicos estou sempre aberto a experiências novas e disponível para novas aventuras. Agora uma coisa é essa disponibilidade, outra coisa é confundir um saber da experiência feito com sintoma de velhice. Que estamos abertos a novas experiências até ficou logo claro, com a abertura que mostramos para experimentar um novo restaurante que até só tem dois meses de existência. Por outro lado, é sinónimo de inteligência e não de velhice, optar por frequentar maioritariamente os locais onde já sabemos que somos bem servidos e em que a relação qualidade-preço nos agrada. Provavelmente tudo o que escrevi até agora não interessa nada aos meus estimados leitores, mas foi disto que me lembrei quando resolvi escrever hoje sobre a polémica da enorme renovação das listas de deputados no PSD. Imagino que o resultado desta estratégia de Rui Rio vá ter muito a ver com a divisão que vier a existir nos eleitores entre aqueles que acham que as aventuras novas são sempre de arriscar e aqueles que valorizam mais os candidatos a deputados com provas já dadas.

No caso do nosso jantar, não correu mal, mas podia ter corrido bem melhor.

*Empresário