Opinião

Fronteira que não posso deixar passar

Fronteira que não posso deixar passar

Para os que se arriscaram a começar a ler esta crónica, gostaria de os avisar de que ela contém pensamentos, atos, palavras e omissões eventualmente chocantes. Diria que são pecados a que me sinto com direito, visto a natureza dos assuntos abordados, de ordem futebolística ou parafutebolística e tendo em conta a situação do país e da sua economia.

Meus caros amigos e leitores: nos tempos que correm, se nem com o futebol podemos desopilar, exagerar, aliviar. Descontrair, sorrir, explodir. Enrouquecer, espairecer, combater..., então para que serve o futebol?

Estou farto dos adeptos, dirigentes e comunicadores politicamente corretos. Dos santinhos e dos bonzinhos. Dos que dizem uma coisa no café ou no facebook aos amigos e depois, postos com um microfone à frente da boca, já se afivelam todos para debitar o soundbyte porreirinho da Silva.

Vergado ao peso de uma derrota com que já não contava, o treinador do Benfica, Jorge Jesus, ajoelhou no relvado do Dragão. Em boa verdade, ainda não se levantou e só hoje à noite poderá reerguer-se... ou ajoelhar-se ainda mais.

Para alguns adversários e alguns correligionários, este gesto conferiu uma dimensão humana a Jesus. A não ser para aqueles que o consideravam já quase um Deus, pela maneira como orientou o SLB até este fatídico jogo, Jorge Jesus sempre foi um homem igual a tantos outros. Com a diferença de que neste sábado à noite, num Dragão vestido de gala, Jesus foi aquele homem que apostou tudo... e perdeu.

Apostou que a sua equipa estava no auge da forma, no apogeu da época e com isso só valorizou a vitória do F. C. Porto.

Apostou que ia sair do Dragão campeão e o melhor que conseguiu foi sair de lá em segundo.

Apostou que o Benfica ia embalar no Porto para uma vitória na Liga Europa e agora está é a tentar que o Salvio não entre logo no Arena ainda a chorar baba e ranho.

Apostou que ia ganhar um campeonato limpinho, limpinho, depois dos roubos de igreja contra o Sporting e Estoril e teve de baixar a cabeça para reconhecer que a arbitragem de Pedro Proença foi uma limpeza. (Apesar de, com o medo com que lá entrou, ter saído sujinho, sujinho...).

Apostou que já tinha aprendido a lição do ano passado e na verdade voltou a apostar na tripleta. Que ainda vai acabar transformada numa chupeta, ficando a chuchar no dedo, se logo o Chelsea confirmar os pergaminhos.

Desde que o viram de joelhos, muitos têm sido os depoimentos de não benfiquistas a declarar o seu desejo de uma vitória vermelha na final da Liga Europa. Até o nosso JN trazia ontem algumas mensagens dessas, de portistas conhecidos, e esta é a fronteira que os meus amigos sabem que eu não posso deixar passar!

Como não sou de traçar hoje uma fronteira e amanhã desenhar um novo mapa, antes que seja conhecido o desfecho do jogo, quero que saibam que logo à noite, mais do que querer que o Chelsea ganhe, quero que o Benfica perca.

O Benfica mais do que um clube português (ainda que praticamente sem nenhum jogador luso) é o principal rival nacional do meu clube. Portugal só me interessa quando o jogo é entre seleções, o que não é manifestamente o caso.

Os adeptos do Benfica são portugueses (ao contrário da maioria dos seus jogadores), mas são os que rasgam as bandeiras do meu clube, incendeiam camionetas do F. C. Porto, agridem os meus jogadores nos túneis e nos acessos, passam os jogos a entoar insultos aos dragões e ostentam cachecóis a desejar a morte aos meus!

Não vou mudar de opinião só porque no Dragão se deu a queda de um anjinho. Mesmo em frente aos Diabos Vermelhos. Como tenho a certeza de que se a maldição de Béla Guttmann já tiver caducado e a equipa do F. C. Porto, para sua vergonha, não cumprir a sua obrigação de ganhar com humildade em Paços de Ferreira, lá veremos os "seis milhões" de antiportistas a destilar o seu desprezo pelo nosso clube.

E se, para mal dos nossos pecados, o Vítor Pereira tivesse de ajoelhar na Mata Real, aposto singelo contra dobrado em como não iríamos ver um único benfiquista a mexer-se na sua direção para o levantar. Nem o Mexia.

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