Opinião

Nem tudo génios nem tudo loucos

Nem tudo génios nem tudo loucos

Todos os países têm passado e futuro. É no presente que ambos se conjugam e entrechocam, produzindo nações e estados mais virados para o futuro ou mais amarrados ao passado. Se o futuro a Deus pertence, como soi dizer-se, pertence-nos, no presente, saber lidar com o passado. Tentando que ele não nos condicione em demasia, mas que também não seja alegremente desprezado. Como em tudo na vida, o equilíbrio destas opções é que é o caminho que leva à virtude e por isso ninguém pode estranhar que seja o mais difícil.

Esta semana cruzei-me com esses dois aspetos do nosso Portugal, um que tresanda a passado e outro que nos traz o perfume do futuro. Curiosamente, o primeiro, que evoca um passado bafiento, merece a proteção do Estado e das suas leis, enquanto o segundo, que promete um futuro risonho, tem vindo a ser toldado por nuvens ameaçadoras que o Estado não tem conseguido dissipar.

Quando alguém me anuncia que tem duas notícias para me dar, uma boa e uma má e me pergunta qual quero saber primeiro, dou sempre primazia à má, porque são sempre as últimas impressões que perduram no tempo. Optei, por isso, começar aqui também pela má notícia do passado que não gostaria de ver no futuro.

Por motivos de ordem empresarial foi preciso apresentar a uma entidade bancária uma ata da assembleia-geral de uma sociedade, que tem um sócio com 95% e outro com 5%, referente à aprovação de uma deliberação simples de aprovação de uma determinada operação financeira. Há muito que não via uma ata deste tipo, mas também há muito que não me ria tanto. E teria continuado a rir pelo dia fora se não fosse tão grave o que é tão cómico. Nos dias de hoje, ter que pôr todos os números por extenso até aos cêntimos, ter que riscar todos os espaços não escritos por miseráveis pedacinhos de linha que sejam, ter que repetir as mesmas informações do nome da sociedade, do nome dos sócios, dos números de matrícula da sociedade, etc., ter que ficcionar que houve uma reunião especial entre dois sócios numa determinada morada, entre muitas outras coisas, é ridículo. Mas é igualmente ridículo que um gabinete jurídico de um grande banco português, em 2018, não consiga encontrar outra forma de confirmar o consentimento de uma sociedade que tem dois sócios, ainda por cima quando um tem 95 e o outro apenas 5 %.

A boa notícia foi mais uma espetacular vitória do desporto nacional. Mesmo desfalcada de alguns dos seus melhores jogadores por razões diversas, a nossa seleção de futebol sub-19 conquistou mais um título europeu para Portugal... mas também para o futebol português, que tão vilipendiado tem sido nos últimos tempos. Gostava muito que me dissessem que outra atividade nacional tem dado ao país tantos e tão merecidos prémios nos últimos anos. Pelo menos, que mais esta grande vitória sirva para restabelecer o equilíbrio. No futebol português não são todos génios... mas também não são todos loucos. Temos de tudo um pouco!

* EMPRESÁRIO

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