Opinião

Nuvem passageira

Nuvem passageira

Há muito tempo que nos habituamos a ouvir dizer que um simples bater de asas de uma borboleta na China pode causar uma tempestade tropical no Havai. Na verdade, mesmo para os que não se cansam de recordar que a Terra é redonda, há acontecimentos que se propagam em linha reta sem nunca se perderem no abismo. Uma das coisas mais complicadas de explicar a um menor no primeiro contacto dele com um globo da Terra é garantir-lhe que mesmo os habitantes que vivem na parte inferior nem caem, nem vivem com a cabeça abaixo dos pés.

Quanto mais sabemos deste nosso planeta e também da sua estrutura, das suas ligações ao espaço e da sua história milenar, mais vamos tentando explicar vários fenómenos estranhos como os que o clima e os oceanos têm vindo a protagonizar nos últimos anos.

Mas é no domínio da interação global - pronto, lá vai a afamada palavra da globalização - que mais curiosidade me suscitam as novidades e ainda sou, não raro, surpreendido com notícias, fenómenos ou consequências que têm capacidade para influenciar meio mundo, sendo que esse meio mundo não é o meio mundo onde eles têm o seu epicentro.

Se eu vos contar que a realização do Mundial de futebol na Rússia, este ano, teve uma influência enorme no mercado de consumidores da Colômbia, os leitores acreditam? Imagino que a primeira resposta seja não, entre um não convicto dos bons entendedores para quem meia palavra basta, mas tem de existir e um segundo grupo, mais do meu tipo, de precisar de ver para crer, que quer mais detalhes ou provas antes de fechar a opinião.

Pois podem acreditar que é essa a explicação que os gurus colombianos dão para explicar o facto de a sua economia estar a crescer, na mesma, mas com menos pujança. Confrontado com esta explicação aqui em Medellín, onde estou no apoio a 15 empresas portuguesas do ramo têxtil e moda, quis saber mais e eis-me aqui a vender essa explicação pelo preço que a comprei. Sem IVA nem comissão ou alcavala de qualquer espécie. Segundo os empresários colombianos com quem debati a questão, sempre que há um Mundial de Futebol os consumidores alteram muito os seus hábitos de consumo durante meses e com isso provocam um rombo considerável nas previsões que as empresas fazem para o ano. Especialmente nos últimos anos desde a revolução digital, com as imagens e os sons a chegarem a todo o lado quase em "real time", esse comportamento imprevisível da massa dos consumidores tem causado alegrias e desgraças em muitas empresas de muitos países. Na Colômbia pelos vistos também, sendo que, neste ano de 2018, a esse fenómeno do Mundial, ainda acresceu uma eleição presidencial muito renhida e conturbada entre dois candidatos que representavam valores e projetos de sociedade diametralmente opostos.

O que vale é que a sabedoria popular nunca se engana e raramente suscita dúvidas. Acabado o Mundial da Rússia e terminadas as eleições presidenciais com a vitória do candidato mais parecido com o status quo anterior, voltou tudo ao que era dantes, sendo que aqui (ou acá, como eles dizem), o quartel-general não é em Abrantes. Basta dar um salto à zona da movida de Medellín, o famoso Parque Lleras, para perceber que tudo não passou de uma nuvem passageira, que com o vento se vai, como se ouve numa famosa canção brasileira como o mesmo nome.

*EMPRESÁRIO

ver mais vídeos