Opinião

O novo direito a votar contra

O novo direito a votar contra

Esta crónica pretende ser uma espécie já de crónica da rentrée, embora os nossos partidos políticos só estejam a marcar as rentrées lá mais para a frente. Sei que um artigo a pedir uma reforma da lei eleitoral não colherá nenhum fruto para as eleições de 6 de outubro, mas também não é esse o meu objetivo. Também sei por experiência que a tradição das alterações à lei eleitoral costuma ser apresentada a meio da legislatura, para que depois a discussão dos pontos mais quentes se arraste até perto do final do mandato dos deputados, podendo ser assim inviabilizado com a desculpa de que as eleições estão à porta. Daí que tenha optado por fazer esta proposta inocente, mesmo antes de saber quem são os deputados da nova legislatura, só para ver se com tanta antecedência se conseguirá algum resultado.

O aumento incessante da abstenção e dos votos nulos e brancos, para além das teorias defendidas pelo atual líder do PSD sobre a necessidade de revolucionar as campanhas, levou-me a uma reflexão em que cheguei a um resultado que passo a apresentar, pedindo um especial cuidado aos leitores para que acreditem que a proposta é seria, apesar da "silly season", e a minha intenção é que possa servir para um "brainstorming" destinado a ajudar a resolver essa magna questão da falta de interesse dos portugueses pelas eleições.

Não é preciso ser politólogo para perceber que uma das razões subjacentes ao elevado número de eleitores que se abstêm ou votam branco ou nulo tem a ver com o facto de nenhuma das propostas ou candidaturas os entusiasmar ao ponto de os levar a votar neste ou naquele candidato. Mas falando com muitos dos abstencionistas, descobri que não sendo capazes de escolher em quem votar, conseguem rapidamente dizer-me em quem nunca votariam, ou quem nunca gostariam que ganhasse uma determinada eleição.

Porque é que nós achamos que o direito de voto se esgota num voto positivo neste ou naquele partido? Não vejo nenhuma razão para não introduzirmos numa futura lei eleitoral a hipótese do voto negativo, que no apuramento final seria contabilizado retirando ou anulando um voto positivo na respetiva candidatura. Expondo esta teoria num jantar de amigos, esta semana, consegui um sucesso total nesta amostragem, uma vez que todos aqueles que estão inclinados a abster-se ou a votarem branco ou nulo, no seguimento da minha proposta, garantiam todos que usariam o seu direito de voto negativo, votando contra, dois deles no Bloco de Esquerda, dois no PAN, um no CDS e outro no PSD. Com o direito de voto alargado à possibilidade do voto contra, ficaríamos a saber melhor o que os portugueses querem, mas também quem não querem. Eis uma proposta contra a abstenção e a favor de uma expressão ainda mais livre do voto popular.

*Empresário