Opinião

O óbvio ululante

É muito raro esbarrar na opinião de alguém que diz exatamente o que eu gostava de dizer da mesma forma e no mesmo tempo. A crónica de hoje é totalmente inspirada numa teoria do meu amigo Paulo Vaz, que ele considera óbvia e eu acrescento ululante.

Não há setor que não seja competitivo dentro de portas, que consiga ser concorrencial à escala global. Vejamos: há quatro fatores produtivos e um não-fator que definem a competitividade de uma empresa, de um setor ou de um país. A saber: o custo da mão de obra (que é diferente do salário), o custo da energia (que inclui tudo o que vem na fatura, seja energia ou não), o custo do dinheiro (e a dificuldade do acesso ao capital) e o custo ambiental, assim como o entorno amigo ou não dos negócios e do investimento, que se consubstancia simplesmente no peso da burocracia e da fiscalidade e na celeridade da justiça.

Em Portugal, se compararmos com os nossos principais concorrentes na Europa e os EUA, estamos quase sistematicamente em desvantagem: o custo da mão de obra, apesar de termos salários médios mais baixos, está fortemente penalizado pela fiscalidade , especialmente quando comparamos com os Estados Unidos; o custo da energia em Portugal é apenas um dos maiores da Europa, não tanto pela energia, mas pelos CMEC (custos de manutenção de equilibro contratual, que podemos traduzir como "taxas e taxinhas") que encontramos na fatura e que ultrapassam 50% do valor ; o custo do dinheiro, que apesar de ter vindo a diminuir, por força do BCE e da melhoria do "rating" da República Portuguesa, ainda é proibitiva para a maioria das empresas, especialmente das PME, que necessitam dos bancos para existirem, trabalharem e investir (sobretudo quando as alternativas ao sistema bancário tradicional ou são tímidas, ou são literatura ou pura e simplesmente são inexistentes); e o custo ambiental, que se encontra bem exemplificado no recente diferendo que opõe as empresas aderentes ao SIDVA (Sistema Integrado de Despoluição do Vale do Ave) e a empresa concessionária, a TRATAVE, sobre o tarifário que lhe está aplicado e que, pela exorbitância dos valores e aumentos sucessivos, se apresenta como clara amostra do que se designa como "rendas excessivas".

Quando se invoca a reindustrialização e a necessidade de aumentar o peso das exportações no PIB do país, convém examinar lucidamente os obstáculos a estes generosos objetivos. Esses estão simplesmente no que atrás apontamos como condicionadores dos fatores produtivos. Aliviá-los ou suprimi-los é tornar o país mais competitivo dentro e mais concorrencial fora. Simplesmente isto. Óbvio? Ululante!

*Empresário