Opinião

Portugal Premium

Agora já não é exatamente como era, mas ainda conheço muitas mulheres que só são capazes de se entusiasmar por um jogo de futebol quando se trata da seleção portuguesa.

Para gostar de alguma coisa ou mesmo de alguma pessoa nunca chegam as primeiras impressões. É só à medida que se vão percebendo as coisas ou se vão descobrindo as pessoas que nós conseguimos gostar verdadeiramente delas. Com o futebol e as mulheres não se passa nada de radicalmente diferente.

Foi quando os estádios começaram a ter melhores condições para receber os espectadores que as mulheres começaram a aceitar experimentar essas novas sensações. Admito que algumas tenham tido essas primeiras experiências com um bom professor, mas outras terão descoberto as regras do jogo e o funcionamento da coisa por si próprias, sozinhas ou em grupo. Depois de apaixonadas pelo fenómeno que agora já dominam muito melhor do que antigamente, a maioria dessas mulheres continuou e continua a gostar da seleção e a torcer por ela, mas também já tem um lugar no coração para o seu clube de eleição. Mas isto tudo para dizer duas coisas. Por um lado, mesmo quando não sabemos muito bem por que razão vestimos a camisola do nosso país e por outro lado sentimos muito mais essa camisola quando percebemos e conhecemos bem o país que representa.

Na semana passada estive em S. Paulo num evento chamado Portugal Premium, que resultou de uma parceria entre a AEP, a TAP e o Turismo de Portugal que serviu para dar a conhecer alguns dos nossos melhores vinhos e produtos agroalimentares a centenas do opinion makers, média e profissionais desses ramos que acorreram ao magnífico Consulado de Portugal em S. Paulo durante dois dias. Foi lá que conheci também alguns portugueses que trabalham há uns anos no Brasil e que quiseram vir matar saudades de pessoas e produtos da sua terra natal. Tive, como hão de imaginar, oportunidade para falar igualmente com muitos brasileiros sobre o nosso país e os produtos em questão. Nestas duas vertentes estabeleci automaticamente uma comparação imediata entre estas conversas e as impressões e opiniões que tinha recolhido há 5 ou 6 anos num evento de características semelhantes. S. Paulo é uma cidade onde não falta nada, supermoderna, plena de oportunidades de negócio e com uma movida alucinante. Há 6 anos os portugueses com quem falei diziam-se a viver no melhor dos mundos (alguns até se imaginavam no melhor do Mundo) e davam-se por felizes por terem optado por sair de Portugal, em boa hora, pensavam eles. Curiosamente, 6 anos volvidos, os portugueses com quem falei agora vi-os satisfeitos pela experiência internacional, razoavelmente impressionados com a grandeza e o estilo da capital paulista, mas a todos escutei vontade de regressar a casa mais cedo ou mais tarde. Percebi até que se sentem numa espécie de missão de serviço, imaginando-se a regressar esporadicamente a Portugal por razões tão frívolas como querer vir ver um jogo de futebol do seu clube, como me disse uma bracarense a trabalhar na EDP Renováveis.

No que diz respeito às minhas conversas com os brasileiros enquanto há 6 anos os via superentusiasmados com os caminhos do Brasil e a vida de S. Paulo, concedendo quase por simpatia que o Porto e Portugal "ok, assim e tal", nesta minha última visita já a conversa era radicalmente diferente.

Desde logo não me lembro de ninguém com quem tenha falado mais de meio minuto que não me anunciasse imediatamente quantas vezes já tinha estado em Portugal e em que sítios. Depois foi fácil perceber que a perceção do nosso país junto deste povo irmão está cada vez mais próximo da história dos bons amigos do que da tragédia dos irmãos desavindos. Recuperando o que disse acima das mulheres e do futebol, também foi preciso que os brasileiros conhecessem a sério vários pontos do nosso país para que o tamanho deixasse de contar como fator de relevo na relação entre as duas nações.

Portugal não mudou de lugar na Europa, mas mudou o chip na cabeça de muitos brasileiros. Continuamos no cantinho da Europa, mas agora para eles já somos aquele cantinho querido, cheio de coisas boas e pessoas interessantes para onde eles gostam de voltar na primeira oportunidade.

*EMPRESÁRIO

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