PRAÇA DALIBERDADE

Quem quer experiências que as pague!

Quem quer experiências que as pague!

Lembro-me bem de quando estava na chamada idade de fazer experiências. Como se calhar aconteceu com todos os leitores, tive experiências que correram bem e outras, de que não me arrependo, mas que correram menos bem. Porque me gabo de sempre ter sido uma pessoa razoavelmente equilibrada (e também porque numa ou noutra experiência mais arriscada fui um homem de sorte) mesmo naquelas situações que correram menos bem não foram nem fatais, nem de uma gravidade que fizesse muita mossa ou deixasse grandes marcas. Pelo que contavam os meus pais, a única marca que carrego até hoje na testa resultou de uma queda pelas escadas da casa dos meus avós maternos, mas eles garantem que foi apenas um azar, não fui eu que decidi ter essa experiência com pouco mais de um ano de vida.

Acontece que nunca como agora se valorizaram tanto as experiências. Aliás, hoje em dia parece que nenhuma coisa tem valor só por ela, só ganha valor acrescentado se for considerada uma experiência. Um bom jantar tem que ser uma experiência, uma viagem só é de sonho se entrar nesse conceito da experiência, um passeio normal pode não ser radical, mas tem que ter lá qualquer coisa também de experiência para valer a pena e até no domínio das relações pessoais é muito mais fácil hoje partir para uma experiência do que enfrentar um relacionamento. Como hoje em dia há muito mais experiências, dando de barato que também há mais experiências que correm bem, é inquestionável que também aumenta e muito o número de experiências que correm mal. Se alguém decide experimentar uns pimentos Padrón e lhe calha um daqueles picantes até dizer chega, ninguém morre, provavelmente até há um grupo que se vai rir muito e o homem ou a mulher da experiência suam um bocado, bebem mais um bocado de qualquer coisa, comem pão com manteiga (recomendo eu), mas não vem daí mal nenhum ao Mundo. Isto é para exemplificar que quando se trata de experiências que só envolvem os seus protagonistas, sem provocarem nenhum mal ou prejuízo a terceiros, que cada um faça as que lhe der na gana, mas já não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que somos confrontados com notícias de pessoal que resolveu fazer uma experiência e acabou a ter que por não sei quantos meios humanos, terrestres e aéreos a tentar que uma experiência que correu mal não chegue a ser fatal. Ainda numa edição do nosso JN desta semana pudemos ler que o resgate de um aventureiro que resolveu ter mais uma experiência na serra da Peneda-Gerês obrigou a uma operação de salvamento com um custo estimado de 45 mil euros. Se estivéssemos perante um ato episódico e mais do que episódico, absolutamente imprevisto e ainda mais do que imprevisto, completamente inocente, eu não estaria aqui a falar do assunto. O problema é que a esmagadora maioria destes casos não são fruto de inocência, cada vez são menos esporádicos e são de uma previsibilidade total. Quando o indivíduo que não conhece ou nunca esteve na Peneda-Gerês resolve aventurar-se sozinho à procura de bichos esquisitos ou de plantinhas raras ou até apenas à procura do seu ser numa noitada ao relento a falar com as estrelas, eu consigo não ter nada contra, se ele conseguir não incomodar ninguém, nem me pôr a pensar que uma operação para o salvar acaba por ser paga pelos impostos dos portugueses que, como eu, não os pagam propriamente para essas cenas.

Como é evidente, não me passa pela cabeça querer que seja proibida a exploração da serra da Peneda-Gerês ou qualquer outra terra, cascata, floresta ou gruta, mas acho absolutamente obrigatório que as pessoas que decidem a seu bel-prazer ter estas experiências estejam preparadas com seguros ou com bens próprios para fazer face aos prejuízos que a sua ânsia de novas experiências venha a causar nos desgraçados que pagam impostos para ajudarem o Estado a cumprir as suas funções vitais, nas quais definitivamente não se inclui o pagamento de prejuízos causados por aventureiros irresponsáveis.

*EMPRESÁRIO

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