Opinião

Tenho o depósito cheio

Tenho o depósito cheio

Não me devo enganar se considerar que estamos na semana mais forte da silly season de 2019. Esta semana não só é em agosto como concentra dias que pertencem às duas quinzenas de agosto e ainda, "last but not least", inclui o feriado de 15 que proporciona uma ponte a 16. Não estranhem portanto que dedique a crónica a comentar uma sondagem que o nosso JN publicou a 4 de agosto sobre os portugueses e a religião.

Devo dizer que não fui um dos 800 portugueses contemplados com o telefonema a pedir a resposta ao supracitado inquérito, mas fui responder a todas as perguntas para tentar perceber se o meu perfil batia certo com o da maioria dos meus compatriotas ou se estou mais alinhado com as diversas minorias. Curiosamente, depois deste exercício básico e divertido, cheguei à conclusão de que, em termos de perfil de português (comparado com as percentagens obtidas nos tais 800 telefonemas), não sou carne nem sou peixe. Apesar de gostar de legumes, o que não sou mesmo é vegetariano - na verdade, sou carne e sou peixe, já que respondi a metade das perguntas de acordo com a maioria e a outra metade alinhado pelas minorias. Voltando aos meus hábitos alimentares, quando me apetece carne, como carne e quando estou mais virado para o peixe, como peixe. Quem realmente não é carne nem é peixe é a maioria destes 800 portugueses que responderam à sondagem. Comparando as respostas, muitas vezes a cara não condiz com a careta, e por isso o JN conseguiu arranjar um título muito engraçado afirmando que os portugueses são católicos e devotos a Fátima... mas também liberais nos costumes. Para quem não atentou nos resultados da sondagem, passo a dar um exemplo. Há 74% de portugueses que professam a religião católica, ainda que estranhamente só 73% acreditem na existência de um deus. 72% acreditam em Nossa Senhora de Fátima, apesar de 93% já terem visitado o santuário. Em relação a Fátima, é ainda digno de registo que existam 60% que acreditam nos milagres de Fátima, mas depois, numa prova de que somos um povo nada interesseiro, só 31% é que já fizeram alguma promessa e estranhamente existem 2% que não se lembram ou não sabem se fizeram. Agora o que é realmente curioso é que a maioria destes mesmos 800 portugueses atendedores de telefone sejam os mesmos que constituem uma maioria absoluta para responder ao arrepio do que são e sempre têm sido os usos, costumes, tradições e orientações da religião católica e dos seus papas. 87% acham que os padres deviam poder casar, 76% acham que as freiras deviam celebrar missa e 65% julgam que os casais homossexuais deviam poder casar pela Igreja. Atenção que estamos a falar do mesmo universo onde 96% são batizados, 83% fizeram a primeira comunhão, 58% são crismados e 59% casaram pela Igreja. Sem que haja registo de alguém ter dito sim a uma freira. Destas sondagens já tenho o depósito cheio.

*Empresário