Opinião

Um ovo de Colombo em Serralves

Um ovo de Colombo em Serralves

Já sei que hoje em dia não é preciso ter grande cultura para saber coisas que se aprendiam às vezes até na escola primária, como a tabuada.

Qualquer criança interrogada sobre quem foi o quinto rei de Portugal ou quantos são 321x540 ,desde que tenha um smartphone à mão rapidamente esclarece esses mistérios sem precisar de espremer as meninges ou queimar os fusíveis. A Internet, ou como agora se diz, o "dr Google" sabe praticamente tudo o que nós queremos saber e... arrisco-me a acrescentar, se a alguma pergunta ninguém encontrar por lá resposta, o defeito está certamente na pergunta , que só pode ser estúpida. Dito isto e mesmo assim, vou recordar o que é o ovo de Colombo, para não correr o risco de ter algum estimado leitor que não se lembre desta história , nem tenha a net à mão de semear e depois não perceba o que eu quero dizer sobre a exposição da artista Joana Vasconcelos agora inaugurada em Serralves. Num jantar de amigos onde pontificava até um cardeal, Cristóvão Colombo começou a suspeitar que duvidavam da grandeza dos seus feitos quando lhe perguntaram se não podia ter sido outra pessoa qualquer a descobrir o novo mundo em vez dele. Em resposta, Cristóvão Colombo desafiou os presentes a serem capazes de equilibrar um ovo em pé no tampo da mesa, sendo que nenhum dos circunstantes foi capaz de tal proeza. Perante a incompetência geral, Colombo limita-se a bater ligeiramente com o ovo na mesa, conseguindo equilibrá-lo depois de o ter ligeiramente partido. De certo modo furiosos com esta habilidade, os seus interlocutores reagiram dizendo "ah, a partir o ovo também nós conseguíamos ", tendo Colombo ripostado dizendo que esta estória também lhes responde à primeira pergunta: depois de ter sido ele a descobrir o novo mundo, claro que há muitos outros que o poderão fazer.

Joana Vasconcelos, à sua escala, que é das grandes, também pode ver a sua obra ser considerada um ovo de Colombo. Já escutei algumas pessoas junto das suas obras a dizerem que qualquer pessoa poderia ter feito um sapato gigante juntando centenas de panelas, uma máscara enorme reunindo muitos espelhos, um galo de Barcelos maior que todos os galos que já eram conhecidos, um anel enorme juntando jantes de automóvel e copos de cristal, um candelabro fabuloso feito de tampões de higiene íntima e um sem-número de valquírias de dimensões descomunais juntando todo o tipo de tecidos e desperdícios têxteis. Aqueles pseudoartistas, intelectuais e críticos de arte que desdenharam e desdenham do valor da Joana Vasconcelos e da sua obra fazem lembrar os que também puseram em causa e quiseram apoucar a façanha de Colombo.

Felizmente o bom senso imperou mesmo contra as capelinhas desses senhores e andaram bem Ana Pinho e os outros responsáveis de Serralves que avançaram para a exposição que agora está à disposição de todos e tenho a certeza que aqui como em Bilbau ,no Guggenheim e em Paris, no Le Bon Marché e em Versalhes, como em muitos outros museus e palácios por esse mundo fora, a exposição de Joana Vasconcelos vai ser um must e bater recordes de visitantes. Já agora, Joana Vasconcelos também está de parabéns porque, ao contrário do que fariam outros artistas , não desistiu nem amuou quando lhe surgiram as primeiras dificuldades para concretizar os seus intentos. Neste particular é bem o espelho de uma Mulher do Norte. We are your mirror, Joana!

*EMPRESÁRIO