Opinião

Paletes de Cátias

Take 1 Independentemente do rating e do share que conseguiram em termos de audiência, há momentos de televisão que é obrigatório ver e é isso que eu aqui quero agradecer ao YouTube e a quem se dá ao trabalho de os lá colocar.

Desta videoteca incontornável faz parte um programa de que ontem vi um excerto. Era na RTP 1, de seu nome "Estado de graça", em que a Maria Rueff imita a Luciana Abreu (ex- Floribela) e outro actor, o ex sportinguista Yannick Djaló, na chegada a Nice, em plena noite de instalação do casal numa vivenda.

Depois de uma transferência decidida no último minuto, tão no último minuto que, pelos vistos, o jogador ainda não entrou em campo pelos franceses, à custa de uns minutos a mais que terá demorado a chegar aos responsáveis a confirmação do contrato ou transferência.

O sketch, completamente ficcionado, não remete para nenhuma situação real objectiva e é antes de tudo hilariante, na forma como caracteriza os dois personagens.

Curiosamente, onde a caricatura mais se acentua é na linguagem, mormente nas falas da Luciana. Maria Rueff, que já deixei perceber, faz de Luciana Abreu, compõe um boneco fabuloso mas sustentado num texto muito engraçado, onde a putativa dificuldade da Luciana com a sua língua materna é meio caminho andado para o sucesso do momento.

Take 2

Também no YouTube, mas mais facilmente num canal perto de si, é possível ver a gravação de vários minutos de excelência da saga da "Casa dos segredos", onde a residente Cátia em conversa com os colegas, ou a instâncias de Teresa Guilherme, dá provas de uma falta de cultura absolutamente gritante. Acrescente-se que esta exibição de quase analfabetismo é feita sem qualquer embaraço da própria, que ainda se ri alarvemente da maioria dos disparates com que diverte a audiência e leva a apresentadora às lágrimas, de tanto se rir.

Take3

A revista Sábado promoveu um inquérito de cultura geral em que são entrevistados vários alunos universitários que, submetidos a perguntas básicas, não são capazes de responder "uma para a caixa".

Lembro-me de por cá nos termos rido muito, uma vez que alguém também filmou uns americanos, a quem era perguntado se sabiam onde era Portugal e que respondiam invariavelmente, não sei, em Espanha, ou no centro da Europa, os mais "esclarecidos".

Pois quem se quiser rir agora dos jovens universitários portugueses que não sabem quem é Angela Merkel, pensam que o actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, é francês; têm a certeza de que o símbolo químico da água é PH; não duvidam que o nosso Manoel de Oliveira é maestro; ainda não repararam que Bush já não vive na Casa Branca; não duvidam que o fundador da Microsoft é um tal de Steve "Jones" e juram que "O Padrinho" foi o Vasco Santana (que a maioria nunca viu mais gordo)... é só irem ao YouTube.

É esta a deixa certa para entrar em cena a conclusão desta crónica. É esta facilidade de acesso à informação que hoje é um dado adquirido, que mais tem contribuído para que a ignorância da juventude seja um espanto, como dizia com pilhas de graça o Agildo Ribeiro.

Quando se pensava que esta democratização do acesso à cultura e à informação seria capaz de gerar uma sociedade mais civilizada e mais sabedora, estamos a assistir precisamente ao inverso.

Nos dias de hoje é confrangedor falar com alunos universitários ou recém-formados sobre qualquer assunto que fuja aos temas que compõem o seu dia-a-dia. Como é também assustador ler um qualquer texto que tenham feito sem a ajuda do corrector do computador.

A convicção de que toda a sabedoria está à distância de um click, em vez de nos tornar mais curiosos e ávidos de conhecimentos, está-nos a legar uma geração indolente e preguiçosa, que se vai especializando no lazer, convencida que o saber não precisa de ocupar nenhum lugar na sua vida actual.

Realmente, quem se tem escandalizado com a Cátia da "Casa dos segredos" escusa de estar descansado porque vem aí uma "palete de Cátias".

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