Opinião

Que se lixem as eleições

Que se lixem as eleições

Neste fim de semana que se aproxima temos dois acontecimentos muito importantes no nosso país. Curiosamente, um que a maioria sabe muito bem o que é, mas em que só uma minoria pode participar e outro que a maioria desconhece, que pode (e deve...) ser participado por todos, mas em que só uma minoria vai participar.

O parágrafo anterior refere-se à final da Champions League de sábado em Lisboa e às eleições europeias, que decorrerão domingo em todo o nosso querido Portugal. Dispenso-me de dizer qual deles é que encaixa em que descrição, porque o óbvio é mesmo ululante neste caso.

Há algumas semanas usei este espaço para apelar ao voto nestas eleições, contra a abstenção, defendendo que o voto em branco (e até o nulo, mas em menor grau) eram duas boas formas de expressar o descontentamento, o protesto e a falta de identificação com qualquer das candidaturas ou candidatos existentes.

Já depois disso, em conversa com o meu amigo Miguel Esteves Cardoso, no dia em que veio ao Porto apresentar o seu último livro ("Amores e saudades de um português arreliado", que já agora recomendo) ele tentou convencer-me de que a abstenção, ao contrário de ser um "não voto", é uma clara manifestação de vontade. Diz ele que quem se abstém, está a dar um voto de confiança nos que votam para decidirem por ele. Gosto muito do MEC e de quase tudo o que ele escreve, mas neste caso não me convence. Presumir que é esse o entendimento de quem se abstém, é muita presunção e não me deixo benzer por essa água benta.

Já na edição de ontem do nosso JN o também meu amigo e ilustre subdiretor Paulo Ferreira, veio manifestar-se contra a proposta do professor Marcelo de se ponderar a introdução do voto obrigatório, argumentando que os políticos não podem ser dispensados da sua obrigação de serem capazes de suscitar e atrair o voto dos eleitores. Mesmo compreendendo a bondade e imaginação do argumento invocado, também peço desculpa ao Paulo, mas não me parece suficiente. Acrescendo, que pelo exemplo das últimas décadas, não tenho esperança nenhuma que a nossa classe política esteja, ou venha a estar, à altura desse grande desafio.

Deixem-me insistir: é preciso fazer alguma coisa para impedir que menos de um terço dos portugueses decidam por todos e o que é ainda mais grave, que depois em função dos resultados, seguramente menos de 15% sejam responsáveis pela escolha de quem fica a mandar na totalidade dos eleitores.

Uma contribuição, ainda que modesta, para fazer este caminho que reputo imprescindível para a saúde da nossa democracia, é explicar ou assinalar devidamente o ridículo em que caem todos aqueles que querem retirar destas eleições ilações diferentes daquilo para que elas são realizadas.

Não é a primeira vez que quem está na Oposição tenta impor uma leitura "legislativa" das eleições europeias. O que nunca foi correto torna-se agora ridículo, confirmando-se, como julgo que se irá confirmar, uma taxa de abstenção a rondar os 70 %.

Mesmo que as contas nos finalmentes acabem por atribuir ao PS os tais 10 pontos acima de que falam as sondagens, seria bom que os socialistas não embandeirassem em arco, nem desatassem a pedir eleições antecipadas, sentados em cima do pequeno punhado de votos que há de representar a sua percentagem de vitória.

Se os partidos, na Oposição, ou no Governo, estivessem confiantes na capacidade de sedução das suas ideias e das suas propostas políticas, há muito que a lei eleitoral já tinha mudado. Reduzir o significado das eleições à sua dimensão e aos seus objetivos pode ser um primeiro passo para que a mudança de perceção do eleitorado possa permitir a mudança de comportamento dos políticos.

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