Opinião

Sair de casa...de toalha na mão

Sair de casa...de toalha na mão

Eu sei que ainda só passou uma semana desde a minha última crónica no nosso JN. Mas também não posso fingir que não sei que já passaram duas semanas desde que teve início o famoso desconfinamento.

Com essa semana de "folga", há oito dias escrevi que iríamos ter de enfrentar dois tipos de reação, a que fiz corresponder dois tipos de portugueses: aqueles que saltam logo para a linha da frente e os outros a que chamei "ratos", que se deixam ficar para trás nos campos de batalha. Há oito dias o meu otimismo apostava que iriam ser muito mais os corajosos que os outros. Ainda bem que não apostei... Mesmo sabendo que também os portugueses não conseguem ter uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão, a verdade é que devemos todos dar-nos uma segunda chance. Acho que os tempos que passamos são tão atípicos que neste autêntico jogo da vida da nossa economia podemos considerar que ainda estamos no intervalo. Daí que gosto de pensar que mais do que uma segunda oportunidade estamos a falar a partir de agora de uma segunda parte do mesmo jogo, onde por isso sendo capazes de dar a volta ao resultado, os portugueses ainda vão a tempo de causar a desejada boa impressão. Valha a verdade que efetivamente só nos últimos dias é que vimos os nossos principais mentores a apelarem à saída das casas, mostrando com o seu exemplo que é possível sair do aconchego do lar sem perder o sossego da saúde. De facto só agora é que podemos testemunhar o professor Marcelo e o primeiro-ministro a beberem um copo numa tasca e a fazer compras de calções, a ver as lojas no Chiado, a tomar o pequeno-almoço numa pastelaria perto de casa e a almoçar com o presidente da AR no Bairro Alto. É justo que se foram especialmente estas personalidades que deram o seu melhor para mandar recolher a casa os compatriotas, também sejam eles agora os primeiros na linha de frente a enxotá-los de novo para as ruas. Claro que tirar um português de casa para a rua nos dias que correm já é meia vitória, mas faltará o resto, que é tirá-los de casa para o trabalho.

Se eu fosse ingénuo ou acreditasse em tudo o que leio estaria aqui a acabar esta crónica vergado ao peso de uma derrota estrondosa. Uma sondagem publicada no início da semana concluía que quase dois terços dos estudantes do Ensino Secundário público discordavam do recomeço das aulas presenciais. A minha primeira reação foi de revolta e desilusão, imaginando que a nova geração já não era rasca, mas podre. Mas na segunda oportunidade que dei à minha reflexão lembrei-me que com a idade deles se me tivessem perguntado se preferia ir às aulas ou ir para a praia sem nenhuma consequência, também eu responderia de calções e toalha na mão. Não é para ligar.

*Empresário

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG