Opinião

Sem cabrito é que não há Páscoa

Sem cabrito é que não há Páscoa

Rezam as estatísticas que Portugal está em 14.º e 15.º lugar na lista de países com maior número de infetados e mortos derivados da atual pandemia.

É pena que ninguém se dê ao trabalho ou à maçada de fazer uma outra lista que seria o ranking dos povos com mais e melhores exemplos de solidariedade em tempos de crise. Mesmo em alturas menos graves o bom povo português já mostrou que chegando a hora de ser solidário pede meças a qualquer holandês, por mais sóbrio que ele se encontre.

Se eu me desse ao trabalho de elencar exaustivamente todas as manifestações efetivas de solidariedade que já foram tornadas públicas em Portugal, não chegariam nem os carateres que tenho para esta crónica, nem seguramente os carateres totais que cada edição JN contém. Até por isso decidi escolher uma situação que eu próprio acompanhei via telemóvel desde o primeiro momento.

Recebi há vários dias uma mensagem de uma associação de produtores transmontana queixando-se de não estarem a conseguir vender os cabritos nesta altura da Páscoa por causa da brutal diminuição de encomendas causada pela crise. A maneira simples e coloquial, sem lamechice, como o assunto era apresentado levou-me logo a sentir vontade de também encomendar um cabrito, o que só não fiz porque a minha mãe, com a prudência que a longevidade lhe ensinou, já há muito tinha o cabrito pascal a recato. A minha colaboração traduziu-se em dezenas de reenvios que fiz da mensagem para amigos na tentativa de que alguém pudesse comprar um cabrito ou mais.

Fiquei ontem a saber pelo nosso JN que a resposta dos portugueses a mais esta situação de crise foi de uma rapidez impressionante, porque se é verdade que não há Páscoa sem cabrito, também não há produção de cabrito em Trás-os-Montes que seja capaz de aguentar tanta procura solidária.

Estando felizmente resolvido o problema dos cabritos transmontanos com falta de compradores, alertam-nos agora para a questão dos queijos. Segundo informações da mesma associação, nesta semana de alta nesse produto, estavam habituados a vender 800 por semana, mas na semana passada só conseguiram vender 15. Nesta questão do queijo devo confessar que já exerci a minha solidariedade desta vez na Região Centro, uma vez que encomendei vários queijos a um produtor de Gouveia, que em anos anteriores estava também mais habituado a servir restaurantes de Lisboa e Porto. De qualquer forma, como com o queijo para mim, todas as semanas são semanas santas, desta vez vou poder colaborar encomendando queijo transmontano. Aliás, vou ver se me despacho na encomenda porque se os portugueses que gostam de queijo forem tão solidários como os que gostam de cabrito, ou trato já do assunto ou daqui a bocado também já não há queijo para ninguém.

*Empresário

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