Opinião

Um escândalo nacional

Um escândalo nacional

Desta vez o PCP, que é a mesma coisa que dizer a CDU, ou vice-versa, ganhou mesmo as eleições autárquicas. Lá está, ganhou mesmo é como quem diz, porque, dizem os números que quem as ganhou foi o PS. Embora na noite eleitoral, enquanto as televisões não as trocaram pelos "Segredos" da Teresa Guilherme, o que não faltou foi vencedores. Que depois já só se anunciaram no cabo, com o Porto Canal em grande destaque.

Quarenta e oito horas depois, dissipada a espuma e as declarações a quente, que viajaram entre a euforia justificada e algum ridículo na escolha das palavras para a ocasião, é possível olhar para os números das eleições com calma e salientar alguns aspetos que nos ajudam a pensar que, se calhar, há certas vitórias que não permitem tirar as conclusões precipitadas que fomos ouvindo na passarela da noite eleitoral.

Comecemos pelo embuste dos independentes. Os resultados contam que duplicou o número de câmaras ganhas por candidatos não apresentados por partidos tradicionais. Já nem relevo o facto de muitos deles terem saído dos partidos, nas vésperas ou antevésperas, serem apoiados por partidos e incluírem nas suas listas gentes e dirigentes dos partidos. Interessa-me a conclusão propalada de que estas candidaturas trouxeram mais eleitores, mais cidadãos para a política, mais representatividade para a democracia.

Tudo falso. A abstenção aumentou na média nacional para quase 48% e em concelhos como o Porto, onde não faltavam independentes a concorrer, foram mais os que não votaram nos candidatos do que os que votaram neles, se somarmos aos números da abstenção o não menos impressionante número de votos brancos e nulos, numa soma que chega aos 53%.

É por estas e outras que não espanta que o número de votos com que Rui Moreira ganhou destacado no Porto seja inferior ao score obtido por Elisa Ferreira e o seu PS na sua fragorosa derrota contra Rui Rio em 2009. Ambos na casa dos 45 mil. O que quer dizer, em boa verdade, que, falando só dos eleitores inscritos no Porto, votou no novo presidente da Câmara do Porto apenas um em cada cinco. Por cada voto a favor, há quatro que não se deixaram seduzir pelo seu projeto e pela sua candidatura. Como é evidente, para Pizarro ou Menezes a comparação é ainda pior, mas também não ganharam.

Como também não deve espantar que o independente Guilherme Pinto tenha obtido maioria absoluta, registando vários milhares de votos menos do que aqueles com que ganhou, ao serviço do PS, as anteriores eleições para Matosinhos e em que precisou da muleta de outro Guilherme para colmatar a falta dessa maioria.

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Continuemos pela teoria das transferências de votos. Como explicar que, ainda no concelho do Porto, o independente Rui Moreira tenha averbado mais 5 mil (em 40) do que o seu candidato à Assembleia Municipal, o também independente e meu amigo Daniel Bessa? Será que, ao contrário das teses vigentes, esses votos não se explicarão pela mesma diferença inversa que se registou entre as votações para a Assembleia e para a Câmara no Bloco de Esquerda e sobretudo na CDU?

Mas é no plano nacional que os números se tornam mais eloquentes. E estas são as leituras nacionais que acho que vale mais a pena fazer. Um dos independentes vencedor dizia, no rescaldo da refrega, que os partidos deviam aprender a lição. Se estamos a falar aqui e ali de uma má escolha do candidato, é fácil dar de barato. Agora, se estamos a falar de um independente que julga que descobriu a pólvora para resolver o problema, então não sabe o que diz. Nos totais nacionais, os que não votaram, mais os que votaram em branco ou anularam os seus votos são 55 %! Um escândalo nacional, numa situação em que os famosos independentes, como agora se diz, fazem parte do problema, não fazem parte da solução.

Não tenho na manga nenhuma solução mágica, mas julgo que é intervindo nos partidos (nestes ou em outros que tenham a coragem de criar) que o problema se poderá ir atenuando. É qualificando a classe política através da chegada dos melhores aos partidos, juntamente com a ponderação do voto obrigatório, que se pode fazer alguma coisa pela redução da abstenção. Arranjar mais independentes como estes é que não me parece que seja solução.

Sendo que os resultados destas autárquicas confirmam que me parece bem!

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