Opinião

Uma festa até ser dia

Uma festa até ser dia

Foi numa noite de São João que fiz a primeira direta da minha vida. Não consigo precisar o ano, mas era ainda menor e esta noite mágica da cidade do Porto acabou na praia, antes de um bom pequeno-almoço. Como é evidente, nem sempre fiz diretas destas nos anos que se seguiram, mas foi desde esse ano que nunca mais esqueci e percebi o verdadeiro sentido dessa expressão de que o São João é festa até ser dia. O que aliás é sempre muito ajudado pelo facto de ser uma festa longa numa das noites mais curtas do ano.

Este ano, a festa de ontem foi completamente atípica. À hora em que escrevo, consigo imaginar que não vamos ter a multidão habitual na Baixa do Porto, já sei que ninguém vai poder desfrutar do tradicional e espetacular fogo de artifício, as sardinhadas estão confinadas e os milhões de marteladas serão seguramente muito menos. Acresce a isto que mesmo para os mais resistentes, que esticaram a festa em suas casas ou em "petits comités", não houve praias para acabar a noite, porque elas só abriram ao público às 9 horas da manhã de hoje. Para quem sempre teve um gosto especial pelas festas são-joaninas, como é o meu caso, e para quem não gosta de baixar os braços ou desistir à primeira adversidade, como é apanágio das gentes do Porto e do Norte, há que reinventar este conceito de o São João ser uma festa até ser dia. Por um lado, é certo que vou festejar o São João até ao fim do dia dele, que é hoje. Mas, muito mais do que isso, hei de fazer uma festa quando as festas se puderem voltar a fazer à séria. Para mim, este ano, a ideia do São João como festa até ser dia passa a ser a de uma festa até ser dia... de se poderem fazer festas. Aquilo que quero para mim é o que proponho à Câmara do Porto.

Caro presidente Rui Moreira: se puder concordar comigo, gostava que não desistisse da nossa festa de São João. Lá mais para a frente, como todos achamos que vai ficar tudo bem, era fantástico que pudesse recuperar a festa de São João. Por um lado, o Santo há de perceber que pandemias não há todos os anos e, por outro, o povo portuense vai aderir, confirmando que o espírito de São João não morre só por termos sido obrigados a mudar a data num ano especial. Para os portistas como nós, estou à espera de um São João em julho (lá está, por causa da pandemia desta vez não antecipado...), mas não é desse que estou a falar, até porque esse não depende de si nem de nós, depende apenas das vitórias da nossa equipa. Mas se até já adiamos um réveillon por uma falha técnica, não podemos adiar um S. João por causa de uma pandemia que não havia há mais de um século?

*Empresário

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