Opinião

A vez do professor Medina

A vez do professor Medina

O povo consegue intuir como isto se endireitaria: trabalho, pão, capital e... justiça. No barómetro da sustentabilidade que o JN publica nesta edição, Miguel Cadilhe fala de investimento, procura interna e procura externa, e Teixeira dos Santos de uma estratégia de crescimento europeia que nos pudesse ajudar. Por palavras conhecedoras, estes dois antigos ministros das Finanças confirmam aquilo que conseguimos intuir.

Mas o povo também consegue intuir que dificilmente isto se endireita, quando a União Europeia se mostra pouco protetora e entre nós desconfiamos uns dos outros quanto à moral dos sacrifícios.

Os dados mais recentes sobre a dimensão do mercado negro na economia da Zona Euro - para cada cinco euros de riqueza ou rendimento declarado, há um euro que não paga impostos - e que no caso português são nada menos de 12 mil milhões anuais em fuga, mostram até que ponto estamos dependentes, para tudo, do que a União Europeia possa fazer em termos de transparência nos negócios e na defesa do próprio valor da moeda única.

Custa engolir que com o dinheiro que foge aos impostos poderíamos principiar a endireitar isto e que não vamos consegui-lo.

À míngua de estratégias e ferramentas internacionais que defendam os cidadãos cumpridores e, em última instância, protejam o nosso modelo social, os poderes parecem socumbir à ilusão e ao circo.

O comunicado de ontem do DCIAP, liderado pela procuradora Cândida Almeida, que veio alertar para a possibilidade de nem todas as buscas do processo Monte Branco (investigação a megafraude fiscal luso-suíça com branqueamento de capitais) terem sido dirigidas a pessoas incrimináveis, mostra quanto o circo mediático pode ser um e a realização da justiça outra.

Em boa verdade, a reafirmação sistemática da presunção de inocência arrisca ser transformada numa espécie de água benta que é aspergida sobre as fugas de informação que alimentam o justicialismo de um sistema de alianças entre poderes que deveriam estar separados e exercer vigilância mútua para melhor servirem os cidadãos e a democracia representativa.

Este novo episódio do Monte Branco é mais uma ilustração da exposição de figuras públicas para consumo mediático de práticas policiais cujo destino último de fazer mesmo justiça não está garantido. E até pode ficar comprometido com este tipo de divulgação precoce.

Coube, agora, ao professor Medina Carreira ser exposto no circo mediático. Um antigo ministro das Finanças que se transformou em comentador televisivo e nos entra pela casa dentro todas as semanas, clamando que chegámos onde chegámos por desgoverno de incompetentes e corruptos, estava mesmo a jeito. Não estava?

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