Opinião

Estranho e... nem por isso

Estranho e... nem por isso

Ganhar a todo o custo a simpatia dos eleitores tem impelido os partidos, em especial os do chamado arco da governação, a exagerarem cada vez mais em promessas de muito duvidoso racional de exequibilidade. Em tempo de crise financeira, económica e social como a que vivemos, esta prática cava ainda mais fundo o fosso entre a política e os cidadãos. Mais do que nunca, é nas atuais circunstâncias de enorme austeridade que se torna perigoso um certo voluntarismo político feito de ideias e palavras que, podendo ser formalmente corretas, não são reconhecidas como verdadeiras nas vidas da maioria dos portugueses.

Há, então, que fazer um esforço de colocar essas ideias e palavras no devido contexto, em vez de as transformar nas meias verdades que apenas servem como armas de arremesso político partidário.

Deste ponto de vista, há que ter particular atenção às ideias e palavras do mundo dos indicadores macroeconómicos.

Porque são esses que se tornam verdadeiramente estranhos à compreensão da maioria dos cidadãos, a contas com todo o género de dificuldades em razão da vertiginosa quebra do preço do trabalho ou mesmo da perda de emprego.

Por isso, quando nos dizem que a economia portuguesa saiu da recessão e até principiou a crescer, vale a pena referir o contexto.

Na verdade, a balança comercial com o exterior tornou-se positiva e é sobretudo deste facto que a nossa economia mais tem beneficiado.

Poderemos, então, perguntar por que não sentimos melhoras no dia a dia da nossa vida. Na reposição dos rendimentos do trabalho, que permanecem empobrecidos pela carga fiscal? Ou de novas ofertas de trabalho, de novos empregadores que substituam os eliminados pelas sucessivas vagas de falências?

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Em boa verdade, o que deve ser dito com todas as letras é que as ligeiras melhoras da nossa economia resultam de um crescimento das exportações, garantido por empresas com muita tecnologia e pouca mão de obra e que, neste contexto, não é previsível que o desemprego caia substancialmente e se torne numa evidência de melhores dias para quem não tem trabalho ou tendo continua a sofrer dos cortes salariais e do peso do esforço fiscal que esmaga as famílias.

É, portanto, necessário esclarecer que as melhoras assinaladas pelos indicadores macroeconómicos sinalizam ganhos cujos impactos sociais são marginais. E que não devemos esperar melhoras sérias para os desempregados de longa duração ou menos qualificados. Ou ainda em relação aos jovens qualificados emigrados, os quais muito provavelmente farão falta quando Portugal conseguir reencontrar-se com um modelo de desenvolvimento sustentável, mas não baseado em desqualificação profissional e salários pobres.

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