Opinião

Censura com programa

O PS só tem um caminho: apresentar um programa de governação, sob pena de a sua moção de censura ser apenas a última da Esquerda parlamentar. Posição insuficiente para ser visto como uma alternativa credível ao Governo liderado por Passos Coelho.

Sondagem após sondagem, o que nos dizem os portugueses é que não acreditem que os remédios para os males de que padecem possam surgir do receituário político da atual governação. Mas esses mesmos estudos também nos dizem repetidamente que essa maioria de descrentes também não acredita que haja remédios eficazes no almofariz da oposição.

Há nesta maioria absoluta de descrentes uma rejeição lapidar dos procedimentos dos partidos do chamado arco da governação, a qual radica no facto de não conseguirem respeitar os programas com que se apresentam e conquistam os votos dos eleitores.

Neste desvio entre promessas e governações uma percentagem de divergência é inerente à responsabilidade de governar o mais possível para todos e não exclusivamente em função dos votantes.

Porém, neste desvio - que a maioria dos portugueses rejeita e se tem vindo a expressar na subida contínua do nível de abstenção - há uma prática parlamentar que deve ser alterada para não expor o regime democrático a um processo de descredibilização imparável.

Refiro-me à necessidade de os partidos, todos os partidos, passarem a usar a Assembleia da República para apresentarem com clareza e detalhe os seus programas de governo. Fazê-lo explicitamente apenas para efeitos de campanha eleitoral é seguramente a forma e o tempo que transformam as boas ideias e práticas em cedências lastimáveis aos desígnios da demagogia política de fraca serventia pública - ou mesmo nenhuma.

Os níveis crescentes de desconfiança com que as propostas são recebidas, independentemente de provirem do Governo ou da oposição, deveriam ser tema de profunda meditação sobretudo para partidos que pela sua implantação eleitoral podem, por si mesmos, almejar a ser alternativa governativa. É o caso do PS.

O estatuto de alternativa governativa pode ser manejado de duas formas: aguardar pacientemente que os governos caiam - e sempre caem, não é verdade? - ou fazer com que caiam conquistando a confiança dos cidadãos. No primeiro caso, apresentar publicamente e com tempo um programa alternativo de governo pode ser despiciendo; no segundo é essencial para tornar claras e positivas as propostas e até os ministros para as executarem.

O PS deveria refletir sobre isto para que a sua moção de censura não seja vista como "aquela" que surgiu seis meses depois da do BE e com mais 100 mil desempregados.