Opinião

Não são anarquistas, são os contagiados pela crise

Não são anarquistas, são os contagiados pela crise

A violência que alastra pelos bairros de Londres apresenta como denominador comum jovens, de caras tapadas com lenços e alguns deles trajando de negro. O suficiente para um dos nossos canais de televisão ter alvitrado, na tarde de ontem, que eram anarquistas. Valha-nos Santa Engrácia! Quanto à violência, essa, tem sido a típica dos motins em meios urbanos: incêndios e pilhagens num toca e foge difícil para as forças policiais.

Em primeiro lugar, é preciso recordar que a polícia londrina ainda ostenta a fama de ser bem mais preventiva que repressiva. Podemos, deste ponto de vista, estar descansados em matéria de uso relativo da força. Só não terá ideia disto quem nunca passou um fim-de-semana na capital inglesa.

Em segundo lugar, é preciso recordar que a Inglaterra é um grande país de acolhimento de emigrantes, incluindo compatriotas nossos, e que Londres é verdadeiramente exponencial na exibição que faz dessa combinação de raças, credos e modos de vida. Uma combinação luxuriante em tempos de vacas gordas mas que rapidamente pode descambar em pequenos ódios de estimação capazes de alimentar todas as rixas e descambar mesmo em batalhas campais quando o posto de trabalho passa a ser disputado como se fosse o último lugar à mesa e as regalias do modelo social europeu vão desaparecendo do mapa desta terra prometida.

Sejamos, pois, prudentes. Londres é já ali...

O modo como desordens sociais alastram rapidamente em grandes centros urbanos como Londres ou Paris ou Madrid tem dado pano para mangas nas mãos de alguns alfaiates da análise política sempre predispostos a etiquetar tudo e todos. E também a retirar conclusões susceptíveis de alinhar mundividências, geralmente moralistas e sobretudo convenientes a uma certa ideia superior de eurocentrismo. Gente que pretende resolver a intrincada equação dos imigrantes exclusivamente à custa das necessidades dos que chegam sem cuidar de conferir quanto os europeus se serviram deles para garantir superiores padrões de vida, rejeitando trabalhos sujos, precários e duros.

Quando a violência principiou em Tottenham, há três dias, em causa não parecia estar nenhum dos factores sociais negativos da crise, mas, passados três dias, já ninguém acredita que os incêndios, as pilhagens, os feridos e os detidos continuem a alastrar apenas por efeito de um confronto meio anarquista entre jovens e polícias.

Quem assim pensar não irá certamente a tempo de contribuir positivamente para que a crise económico-financeira não contamine os tecidos sociais do multiculturalismo europeu.

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