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Margarida Fonseca

#papómetros

À procura de um medicamento acabei por parar em Espinho, num lugar de estacionamento pago na rua 18. Introduzi um euro e "ganhei" uma hora no parcómetro. Pensava eu que era tempo a mais (não tinha mais moedas nem as máquinas dão troco), mas já ouvi tantas histórias com fiscais da concessionária, a "Esse", que deixei o ticket à vista e fui à minha vida. Fiquei na farmácia mais tempo do que pensara porque o medicamento teve de vir de outro local. Saí do estabelecimento a faltar um minuto para o fim do tempo de estacionamento pago. Vi um funcionário da empresa (que cercou Espinho com parcómetros e afugentou clientes da Comboios de Portugal para os arredores) de bloco na mão e a olhar para a minha matrícula. "Que raio...?", pensei. Ainda estava dentro do tempo. Abri a porta do carro e o homem pôs-se a olhar para mim com ar aborrecido. Chave na ignição e deixei o lugar à hora precisa. O fiscal continuava a seguir-me com os olhos. Contei este episódio mais tarde a um amigo que vive em Espinho. Disse-me que tive sorte em não ser multada já com o carro a trabalhar. "Como assim?", perguntei. Os fiscais de Espinho têm ordens para autuar se o veículo permanecer no lugar mesmo com o condutor já ao volante. Safei-me por segundos desta equipa de papómetros.

Margarida Fonseca

#lantejoulas

"Tu gostas muito dele, não gostas?" A pergunta pôs-lhe brilho nos olhos. "Comprei-lhe uma camisola para o Dia dos Namorados", respondeu, justificando que era só "para marcar a data", que prendas e amor devem ser coisas de "todos os dias". Sim, o amor deve ser "coisa" de todos os dias, sobretudo quando se está junto há mais de 30 anos. E é. Ele liga-lhe ao fim da tarde, pergunta onde está e ela, fingindo-se zangada, diz que ele sabe bem. "A trabalhar, ora essa!", atira, para logo largar uma gargalhada e rematar a conversa com um pedido em tom de mimo: "Vens buscar-me?". Na última quarta-feira, o tal dia de namorados, ela chegou triste. "Costumamos jantar fora, mas ele, desta vez, não disse nada. Oh, deixa lá." Eu deixei, mas reparei que faltava o brilho nos olhos dela, que estava mais calada, que olhava para o telemóvel em busca de uma chamada dele. Disse--me até amanhã num pio. Senti-lhe os passos a descer as escadas com lentidão. O amor é coisa de todos os dias, pois é. O dia dos namoradores apenas uma invenção consumista. No dia seguinte, ela já recuperara o sorriso. "Pela tua cara, ontem acabou por correr bem", afirmei, sem esconder o tom cusco. Ela riu. Alto. "Sabes o que ele fez? Pôs bombons de chocolate debaixo da camisola que ofereci. Estavam a formar um coração. Foi tão bonito!". Senti a emoção a chegar-lhe aos olhos. Tinham um brilho maior, tão grande que pareciam luas cheias feitas com lantejoulas.

Margarida Fonseca

#"boralá

A inspiração abandonou-me ontem. Já estava a arrancar cabelos quando percorri a Internet, percebendo que era inevitável não falar do assunto do momento: o fim de mais um ano. Custa-me sempre olhar para o passado e senti-lo tão presente. Custa porque a frase "parece que foi ontem" faz sempre sentido. Mas pronto. Sem inspiração o que fazer? Falar do inevitável. Mesmo que o inevitável, o ano novo que chega amanhã, me deixe sempre dividida entre o medo e a esperança. Medo de que a esperança em mais sorrisos se traduza em nada, esperança de que o bom que ainda não vivi esteja aí, à minha espera. Sinto sempre nostalgia quando bate a última badalada da meia-noite. É o mesmo sentimento que tinha, em pequena, quando chegava a última noite de férias. Ficava triste, num canto, não sabendo como explicar por que não aproveitava os últimos momentos de dias felizes. Hoje sei que se chama "nostalgia da perda" a esses instantes em que a saudade do passado, ainda que recente, nos deixa como manteiga a derreter ao sol. Não vou fazer balanços do ano que acaba. Nem farei promessas para o que vem. Quero vê-lo como um desafio, como uma parede branca onde procurarei desenhar cada dia. O resto... logo se vê. "Bora lá? Bom ano, querido leitor.

Margarida Fonseca

#desabafo

No dia em que recebi más notícias num consultório médico, um dos meus anjos na Terra (chamo assim a quem está e estará sempre a meu lado) enviou-me uma gravação do próximo CD de Salvador. Lá voltei eu a ouvir "Amar pelos dois", gravada ao vivo, cantando--a baixinho e acabando a chorar, como acontece sempre. Porque choro? Não sei explicar. Há qualquer coisa de muito especial na letra e na voz de Salvador que abrem as comportas à emoção. Dirão alguns que me leem: e...? Pois. Amanhã é véspera de Natal. Diz-se que é a época de tolerância, partilha, afetos. Por isso, permiti-me hoje falar com o leitor de coisas minhas. Há dois anos comecei a perder gradualmente a capacidade de andar. Desde o último verão a situação agudizou-se, não só na locomoção como na descoberta de outras maleitas na busca de diagnóstico. Sei agora que sofro de obstrução arterial, causada por colesterol e tabaco. Hoje é o quinto dia que deixei de fumar ao cabo de muitos anos. Não está a ser fácil. Mas a vontade de recuperar forças para voltar a passear, a caminhar na areia, a acompanhar os meus anjos na Terra é tão grande que, embora tenha momentos em que mordo os lábios, não vou ceder. É o melhor presente que darei ao meu filho e que daria à minha mãe que partiu faz amanhã um ano. Boas-festas para quem me leu até ao fim. Para os outros também.

Margarida Fonseca

#resgate

Os CTT são o exemplo de uma má privatização. Prestam um péssimo serviço aos cidadãos, têm resultados deficientes, não se coíbem de despedir pessoal e são alvo de críticas da ANACOM, a entidade reguladora, por não cumprirem as suas obrigações. Ontem, a empresa foi tema no Parlamento, sem consenso na geringonça. Ou seja, comunistas, BE e PEV pretendiam que os CTT voltassem ao Estado (que os vendeu, em 2013 e em 2014, arrecadando 900 milhões de euros, estava Passos Coelho no poder), mas o PS e os partidos da Direita entenderam que a solução é criar um grupo informal para avaliar alternativas à reprivatização. O que quer isto dizer? Não se sabe. Aguardemos. Curiosamente, esta semana, voltei a ser vítima da má gestão dos correios. Uma carta para um exame hospitalar foi entregue pelo carteiro às 13 horas no dia em que ele deveria ser feito... às 9.30 horas. Na estação da área da minha residência apontaram-me duas soluções: escrever no livro de reclamações ou para o provedor do cliente, confirmando-se que os giros só se fazem se o volume de cartas se justificar e uma vez por semana. E há pensões de sobrevivência que são entregues com três a cinco dias de atraso. Perante isto, estou ao lado dos parceiros do PS na geringonça: resgate-se a empresa antes que seja tarde.

Margarida Fonseca

#desabafo

São 16.47 horas. O nevoeiro cerca a casa. É feriado, 8 de dezembro, para mim dia das mães apesar do consumismo dizer que não. Está frio e cheira a fumo. No quarto, o filho vê no computador um filme a preto e branco. Espreito e vejo uma mulher a chorar, com as mãos a esconder a cara. Fecho a porta porque não quero saber da história. Na rua, buzinadelas de carros dizem que houve mais um casamento na capela. Espreito pela janela. O escuro do dia só deixa ver as luzes. Alguém começa a tocar guitarra elétrica no prédio. Toca a música "Para sempre" que Zé Pedro compôs para os Xutos e Pontapés. O Zé Pedro que nos deixou há dias. Canto baixinho o refrão: "Ai, meu amor/ O que eu já chorei por ti/ Mas sempre/ P"ra sempre/ Vou gostar de ti". A guitarra cala-se. Sobressai o som de aspiradores, de uma varinha mágica, ouvem-se vozes. 17.15 horas. Noite fechada. Passam poucos carros. Nunca entenderei esta regra de mudar a hora quando cheira a inverno. Atrasa-me o bom humor, adianta-me a nostalgia. Decido fazer sopa. Sempre aquece os pés e poupa-se um bocadinho na eletricidade desligando o aquecedor. O filme a preto e branco continua no computador. O nevoeiro está mais denso. Deixo-me cair no sofá. Que seca de feriado.

Margarida Fonseca

#ajuda?

Um dia destes, o frio repentino obrigou-me a comprar roupa. Atrevi-me a entrar numa dessas lojas da moda, que estava em promoções e quase vazia. Mal tinha agarrado numa peça abeirou-se de mim uma empregada. "Precisa de ajuda?", perguntou. Disse-lhe que ainda estava a ver. E continuei. Mas nada via que me coubesse no corpo ou na bolsa. O XL parecia um XS e os preços XS tinham forma de XL. A menina, sempre a sorrir, insistia em dar-me ajuda e a tentar convencer-me que devia experimentar. O problema é que já tenho idade para saber que certas experiências são perdas de tempo. Agradeci e saí. Quase ao lado, numa loja para toda a família, uma multidão agarrava em peças, discutia gostos e dirigia-se para as filas dos vestiários. Encontrei duas peças que gostava, mas faltavam o preço e o tamanho. Estiquei o pescoço para ver se encontrava ajuda. No outro lado da loja, uma menina colocava, em cruzetas, roupa que retirava de uma pilha num carrinho. Dirigi-me a ela e nem fiz a pergunta: "Vá ao balcão. Estou ocupada". As duas filas no balcão e a resposta ouvida deixaram-me a suar. Coloquei as peças no monte e perguntei à menina: "Precisa de ajuda?". Um dia destes volto para ver se já tem resposta.

Margarida Fonseca

#"guerra"

Faz-me impressão a "guerra" política entre Porto e Lisboa que, volta e meia, toma conta dos nossos dias. Não sei se é porque a vida levou a minha família a espalhar--se pelo país ou se o facto de pertencer a um clã de portuenses, lisboetas, transmontanos e beirões faz-me ver as diferenças regionais como um dom e não como um castigo. Custa-me perceber porque raio há esta necessidade de se criar um falso pódio de cidades quando, na verdade, sempre que se fala de descentralização a ideia é gritar que Lisboa "tirou" ou "não deu" coisas ao Porto, com a capital a prometer mudar tal cenário (para gáudio dos que ainda sonham com a regionalização), acabando por nada fazer quando o clima sossegar. Trata-se, afinal, de uma atitude pouco diferente da que o Porto tem com outras cidades do Norte quando se assume como "segunda cidade do país", logo merecedora de tratamento privilegiado. "Guerra" por "guerra" antes a futebolística onde a rivalidade obriga clubes a trabalharem para as vitórias. Explico a preferência: a rivalidade transforma--se em espírito fraterno quando os jogadores se juntam na seleção. Nessas alturas, somos, antes de tudo, portugueses.