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Margarida Fonseca

#partilha

Insónias e pesadelos, lágrimas sem sentido, irritação fácil, passividade, recusa em ver cenários positivos, recordações amargas, autoestima em baixo, tendência a valorizar a dor, falta de capacidade para conversar, dificuldade em acreditar. E cansaço, muito cansaço. O que descrevi senti durante meses. Sabia que não estava bem, mas nada fazia para corrigir. Até ter um ataque de ansiedade que me levou ao hospital. Sim, sofro de depressão. Sim, sou acompanhada terapeuticamente. Sim, estou medicada e tento, todos os dias, lutar para melhorar. Vou conseguir? Direi que sim. Não é fácil assumir publicamente este estado. A saúde mental chama estigmas. Há que combatê-los. Porque falo aqui de depressão? Porque acredito no poder da partilha. A vida só é boa com recomeços. Para isso há que haver coragem. E fico grata a quem nunca me irá julgar.

Margarida Fonseca

#colorqueen

Isabel II morreu. Aos 96 anos. Há dois dias que ouço falar do Reino Unido e promete continuar. Morreu a rainha, já se canta "God save the king", mas Isabel II era "the queen". Para os ingleses e para o Mundo, apesar de outras existirem. Não estando em causa a política (pessoalmente gosto da República onde vivo, mas não sei o que é viver numa monarquia), senti mágoa quando soube da morte da rainha. A imagem que ela me deixa é a de uma senhora que recusava que a idade fosse uma coisa negra. Rever fotos onde Isabel II surge, na famosa varanda do palácio, com cores alegres, desde o verde-alface ao roxo, faz-me acreditar que se tratava de uma mulher que vivia com alegria, apesar de não parecer de riso fácil. E isso é um estímulo para quem acredita que as cores são energia. Também fossem elas o segredo para ter reinado 70 anos.

Margarida Fonseca

#porcos

A história de oito porcos vietnamitas à solta pelas ruas em Avido, Famalicão, põe quem lá vive com os cabelos em pé porque não há caixote de lixo que fique sem ser visitado e há danos em todo o lado. O problema é que a casa do "dono" destes animais fica perto de uma estrada nacional, com todos os riscos que isso acarreta. Mas o homem não está preocupado. Diz que não os alimenta nem os prende e mostra uma "passadeira" pintada a amarelo que fez na berma para que os porcos saibam por onde devem andar. Os vizinhos não acham piada à situação e afirmam que "há cinco, seis anos" que não se cansam de denunciar a situação às autoridades. Que anteontem decidiram, em quatro viaturas, ir ao local para recolher os porcos depois de reportagem no JN. Tiveram pouca sorte. Só dois (os mais pequenos) se deixaram apanhar. Os outros, espertos, nem vê-los. Fica para a próxima.

Margarida Fonseca

#costas

A conversa que vou reportar aconteceu numa esplanada onde pousei para um café. E é um exemplo de como o ser humano gosta de falar nas costas dos outros. Conhecidos ou desconhecidos. O meu sossego foi quebrado por gritos de alegria de uma pessoa sentada na mesa ao lado. Abraços, muitos, "como estás?", "que bom rever-te", "adeus, vê se ligas" foi o que vi e ouvi. Eram dois seres humanos num reencontro? Engano. Parecia, mas não foi. Mal a pessoa reaparecida foi embora, a conversa mudou o tom. "Reparaste que envelheceu?", "É da pinga", " E engordou!", "Pois... nada faz". Dei comigo a rir. Não da conversa tipo "amigos da onça", mas de pena por haver quem precise de humilhar e maldizer nas costas. Lembra-me comentários que por aqui aparecem, jocosos, insultuosos, arrogantes. Por aqui e nas redes sociais. E ter uma vida, não?

Margarida Fonseca

#heróis

Em descanso para os lados do Douro, tive uma experiência que confirmou a aflição que nos assola por estes dias. Com um incêndio no Marão, aviões de combate Fire Boss vieram abastecer-se no rio, levando a que me levantasse em sobressalto, como se a pilotá-los estivessem filhos meus. E foram dias seguidos que os aparelhos amarelos passaram frente a mim, com rotas diferentes, por vezes pondo a sirene a avisar barcos que ali navegam. Lembrei André Serra, de 38 anos, que morreu, há um mês, depois de o Fire Boss que pilotava se despenhar numa quinta em Castelo Melhor, Foz Coa, após ter pousado no mesmo Douro. Dei por mim a desejar muita sorte aos que me apareceram em tempo que deveria ser de sossego. E a querer que o fogo não fosse maldito. A persistência dos homens e das mulheres faz-lhe frente. Numa luta que só os heróis conseguem. Obrigada.

Margarida Fonseca

#bem-vindos

Prevê-se que o pico do regresso em férias de emigrantes seja atingido neste fim de semana. Já se veem por aí carros com matrículas estrangeiras, o que aponta para o que as previsões indicam: serão mais os que voltam por um agosto em casa, depois de dois anos de ausência forçada. Filha de emigrantes e com família que procurou lá fora o pão que por cá não havia, sinto-me com à-vontade para falar de cuidados. O acidente que matou dois filhos de um emigrante em França às portas da terra, Fafe, ocorrido em Zamora, dá a certeza de que ter pressa de chegar não vale a pena. O pai está ferido e internado. Os filhos vão a enterrar. Para os que por aí já andam e para os que vêm cá matar saudades peço atenção na estrada. A euforia, o cansaço, o desconhecimento da via rodoviária e uma certa exibição deixam sempre más notícias. Sejam bem-vindos, companheiros. E boas férias com vida boa.

Margarida Fonseca

#tranças

A atriz Rita Pereira posou para uma rede social com a cabeça cheia de tranças. Abriu a polémica. Houve quem a acusasse de apropriação cultural: o tipo de tranças é usado por africanos e há quem afiance que quando os africanos as usam são vítimas de racismo. Então, se a atriz decidiu usá-las também corria esse risco? Não. Porque ela é branca. Logo, ela é que é racista e, além disso, está a apropriar-se de algo que culturalmente não lhe pertence. A visada, que tem um companheiro de origem africana, respondeu que se tratou "de admiração cultural" e o certo é que acabou com o penteado da discórdia. Espero que agora não se lembre de se vestir como os marroquinos ou indianos, não dance merengue, não pinte as mãos como as noivas árabes nem se atreva a vestir um burquíni. Se o fizer, está a apropriar-se do tempo de quem nada tem para fazer a não ser criar ódios.

Margarida Fonseca

#luto

Quando vi uma mulher de 93 anos, de uma localidade derretida pelo fogo em Ourém, a contar que tinha sido levada descalça de casa - fazia uma sesta na hora do fogo - dei por mim a perguntar por que razão a vida castiga tanto pessoas que carregam uma história. Depois, soube que essa mulher perdeu casa, uma cabrita, um galo e duas galinhas, "roupa boa", um televisor, um frigorífico. Ou seja, perdeu tudo. O olhar dela deu-me arrepios. Pareceu-me que, embora viva, estava morta por dentro. Ficar sem nada é terrível em qualquer idade. Não imagino o que será aos 93 anos. Agora, que acabo estas linhas, ouço falar na morte de um piloto, 30 anos, que ajudava num incêndio em Torre de Moncorvo. O seu caixão foi o pequeno anfíbio que pilotava e que se despenhou, não o fogo. Mas o fogo foi o que o levou à morte. Trágica. E pensava eu que o negro das terras seria o único luto que faríamos este ano.

Margarida Fonseca

#semvida

Nunca me calarão contra a violência doméstica. Nem contra a morte que dela resulta. Saber que entre janeiro e junho deste ano morreram em Portugal 16 mulheres vítimas de violência doméstica, tantas como em 2021, é aterrador. Como aterrador é fazer cálculos e saber que só no mês passado foram mortas seis mulheres, o que significa que em cada cinco dias houve um crime dessa natureza. O retrato dos assassinos é quase sempre comum: ex-maridos ou ex-companheiros. As vítimas também têm pontos iguais porque viviam ou tinham vivido uma relação onde a violência era constante. E sempre que uma mulher morre desta forma ignóbil perdemos pontos como comunidade. Continua enraizada a posição de não nos metermos na vida dos outros. Pois não. Na vida que é boa. Naquela que tem gritos e sons de socorro, temos de nos meter. Porque não acontece só aos outros.

Margarida Fonseca

#apagados

Valentina, Joana, Vanessa, Daniel, Henrique e Raphael, Leonor, Henrique Barata, Maria João, André Fernandes, David, Carlos, Tiago, Ruben e David, Samira e Viviane. Estes são nomes de crianças mortas por mães ou por pais. De forma hedionda. As notícias que facilmente se encontram na net são acompanhadas por fotografias nas quais todas surgem com sorrisos ou ar sereno. Como se quisessem apagar os relatos de violência de que foram vítimas. A elas, junta-se o sorriso de Jéssica, três anos, morta à pancada, drogada para não gritar, abandonada até morrer. Jéssica não foi morta pelos pais. Mas não lhes retira culpa, quanto mais não seja moral, por uma morte tão cruel. Jéssica já não mora em Setúbal. Jaz numa campa desde ontem. Jéssica terá sido assassinada por alguém que não tinha o seu sangue. Porquê? Nenhuma resposta será aceitável. Faça-se justiça. Por todos os sorrisos apagados.

Margarida Fonseca

#medoemar

O mar estava picado, não fosse hora de mudar a maré. O casal, com um menino de uns quatro anitos, falava alto, numa conversa aos picos como as ondas. Dividiam palavras como "parva", "estúpido", "palerma" e "sonsa" numa discussão sem nexo. De repente, o homem agarrou no puto, correu com ele até ao mar e, rindo alto, mergulhou-o uma, duas, ene vezes. A criança gritava e pedia clemência, com o olhar, à mãe que ficara na areia e também ria, até gritar para o homem parar. Ele parou. O menino chorava e tremia de frio, apesar de embrulhado numa toalha. O homem berrou: "És um medricas, moço. Não sais ao teu pai". "Medricas não és. Só palerma", atalhou a mulher. Ele contrapôs, sempre a falar alto: "O meu pai tirou-me o medo com mergulhos no mar". Fez-se silêncio. Só o menino, em soluços, murmurava: "Mar não, mar não".

Margarida Fonseca

#que...

À hora em que escrevo estas palavras acabo de editar o texto que fala de um bebé que morreu na Urgência do Hospital das Caldas da Rainha. Dizem que a falta de um dos três obstetras escalados poderia ter feito a diferença. Não sei. O que leio é que a Urgência de Obstetrícia tinha as portas fechadas a uma mulher grávida, com dores e que chegou a ser preparada para ser transferida para outro hospital. E que a cesariana feita, perante a reversão do seu estado, não foi suficiente para salvar uma criança. Leio que vão ser feitos inquéritos. Que a mulher está estável. Que o Ministério alega que há "constrangimentos" hospitalares difíceis de suprir. Que o sistema está doente. Que faltam médicos. Que os hospitais estão em rotura. Que há muita gente a recorrer às urgências. Que... tantos "que", senhores, quando apenas um tem de ter resposta: que caos é este?

Margarida Fonseca

#big

Entrei no café quando o televisor tinha o som absurdamente alto. Dois homens discutiam. Um falava em caca (traduzi), outro chamava-lhe boi. Reconheci o programa e os protagonistas da contenda. Um é o ator Nuno Homem de Sá e o outro um antigo futebolista que agora fala de famosos chamado Gonçalo Quinaz. Nas mesas, havia quem desse gargalhadas. E quem abanasse a cabeça num gesto de reprovação. O televisor emitia os gritos de colegas no programa, o "Big Brother", galinha dos ovos de ouro da TVI. Os homens da discórdia dividiam apoios no café. Reparei em três crianças sentadas junto a adultos. Só uma olhava para a cena. Ao lado, uma mulher afiançava: "Dava-lhe no focinho". A criança riu. "Os bois têm focinho?", perguntou. Como ninguém respondeu, levará, com certeza, a pergunta para a escola. É a chamada "big" educação.

Margarida Fonseca

#mazelas

Soube-se ontem que no, final de março, eram mais de 1,2 milhões de portugueses sem médico de família. Eu, que me considero uma sortuda por ter um há 25 anos, não sei o que faria se ficasse sem assistência clínica familiar ou nem tivesse as consultas abertas dos centros de saúde. O que eu sei é que os números publicados no Portal da Transparência do Ministério da Saúde indicam um agravamento na falta de médicos de família e que são os valores mais altos desde 2014. Esta poderá ser uma explicação para o aumento de pessoas que recorrem às Urgências hospitalares, numa altura em que persiste a covid lado a lado com gripes. Falar-se em "falsas urgências" é não saber o que sente quem não tem alternativas nos centros de saúde. E, mesmo que se trate de uma pequena mazela, será pequena para quem assiste, mas não para quem sofre.