Imagens

Últimas

Margarida Fonseca

#saudade

Soube ontem que a minha vizinha do rés do chão morreu. Soube através de uma mensagem do condomínio. Primeiro senti um arrepio. Depois fez-me falta os barulhos do seu quotidiano. Foi um sentimento estranho porque a nossa convivência era fraca. Em 20 anos a viver no mesmo prédio foram mais os ralhetes do que conversas normais de vizinhança. Era uma mulher atormentada pela viuvez, pela ausência de família, pela incapacidade de aceitar os outros. Mas bastava-lhe atenção de minutos para se derreter em palavras doces. A dona Tina habituou-me a ouvir, em alto som, o terço todos os dias e a missa todos os domingos. E a vê-la à volta dos canteiros ou a varrer o pedaço do pátio comum. Deixei de a ver em dezembro. Mês da sua morte, junto da filha, longe de nós. As janelas fechadas trazem-me, agora, saudade. Os vizinhos também são família.

Margarida Fonseca

#diferente

Cada ser humano é único. Pelas características com que nasce e por aquelas que a vida lhe vai impondo. Se somos todos iguais perante a Constituição em termos de direitos e deveres, o facto de sermos diferentes em termos anatómicos terá de ser respeitado. Não posso aceitar que alguém que não tenha ainda sido vacinado contra a covid por questões médicas seja rotulado de negacionista. Porque não é. É apenas alguém que corre mais riscos do que os que são inoculados e que vive com o coração nas mãos. Por isso não larga a máscara, nem o desinfetante, nem o distanciamento social. Vive com medo de ser contagiado por um amigo vacinado mas assintomático, com a preocupação em não estar em grupo. Não é fácil viver desta maneira, à espera que chegue o dia em que se possa ganhar proteção via vacina. Generalizar é perigoso. Pensemos nisso.