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Margarida Fonseca

#bonsai

Tenho fascínio por teorias de Psicologia que nos fazem pensar, pelas discussão que elas trazem. A última gira em torno da "geração bonsai", podada e moldada pela família que argumenta com medos e ansiedades. É a geração bonita, mas mutilada e arrumada para o canto da egocentricidade. A árvore que gerei teve tempo para pegar em lápis para fazer contas ou desenhos e para cheirar quintais cheios de sons e cores. Ouviu-me dizer que a vida não é um vaso a manter, porque mais cómodo, e que vale a pena arriscar e passar para o canteiro da rua do nosso bairro. Que estamos, constantemente, a enfrentar espinhos, ervas daninhas. Que, muitas vezes, temos de escavar a terra que nos rodeia para não secarmos e perdermos as raízes. Não consegui evitar, é certo, que hoje as contas sejam feitas na calculadora do telemóvel, que livros sejam lidos em ecrãs do computador ou que filmes sejam vistos fora do prazer de uma sala com gente. Nem que se troquem conversas por mensagens com palavras abreviadas. Falhei? Não sei. Só sei que é difícil plantar uma semente num terreno minado e que a tentação possa ser a escolha de um vaso com redoma. E que é bom ouvir teorias para mudar.

Margarida Fonseca

#berdete

"A box está a dar o berro", gritou o filho da sala. Pensei: "A sério? O aparelho preto que, há mais de cinco anos, é responsável pelo visionamento televisivo cá em casa está a morrer?" Fui ver. Está. Volta e meia o ecrã fica preto, o aparelho também e há que esperar por uma espécie de ressuscitação, tão lenta que mete dó. Liguei para a operadora. Passei as opções até ouvir uma voz que parecia humana. Digo "parecia" porque temo que as operadoras de telecomunicações funcionem só com robôs, já que põem os clientes a trabalhar. Contei o sucedido. Nove minutos e 28 segundos depois a "voz" diz que há solução: pegar na box (da empresa), levá-la a uma loja (da empresa) e trocá-la. "Eu? Pago um serviço e sou eu a resolver o problema?", refilei. Resposta: "Se quiser ver televisão...... Mais alguma coisa, senhora Margarida?". Uma e tripeira: "Já me "tão a meter um berdete..."

Margarida Fonseca

#agostiar

Andamos um ano à espera das férias grandes, julgando que serão cura para maleitas de stresse. Escolhemos agosto porque mês de encontros com quem mais gostamos. Penduramos o trabalho no cabide e cumprimos planos traçados. Sabemos, porém, que essa é uma tarefa difícil e que, quando acabarem os dias de calções e chinelos, corremos o risco de estar mais cansados do que antes. Feiras, esplanadas, restaurantes à beira-mar, piscinas públicas, música ao ar livre, praias depois das 10, zonas para piqueniques e terras com romarias são locais que estão sempre com lotação esgotada. E os hipermercados? Ai os hipermercados. Prateleiras com falhas a partir da manhã, filas em cada balcão e em cada caixa, famílias a ver preços e promoções em jeito de passeio. Só com espírito português consigo sobreviver. Deixo-me ir, desacelero e penso: "Deixa lá. Não "agosties" com isto".