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Margarida Fonseca

#tempo

Não vou falar do Dia da Mulher. Já foi ontem. Vou falar como mulher. Hoje. Estou naquela idade em que se é nova para umas coisas e velha para outras. Não acho que a idade seja um posto. Apenas no respeito. Não me preocupa que a idade me traga mazelas, rugas, cicatrizes. São prova da minha força, sinais de vitórias. Aguento a perda da flacidez da pele, dos músculos, do brilho dos cabelos ou a escassez das sobrancelhas. Não aguento é que me olhem como coisa do outro mundo quando tento fazer algo mais arrojado. E algo mais arrojado será, por exemplo, usar expressões mais recentes (bué e fixe, cenas e "a sério?" são para quem ainda não entrou nos "enta"), assumir que não tenho força para mudar um pneu (a minha estrutura física não deixa) ou querer conhecer o quadro elétrico de casa (para não ter de pagar a estranhos com pequenas avarias). Tive um filho depois dos 30, sabendo que teria de acompanhá-lo mais depressa e que poderia obrigá-lo a inverter papéis mais cedo. Ainda não aconteceu. Continuo a fazer os papéis todos: para além da profissão, lavo e limpo, passo a ferro, cozinho, vou às compras, faço listas e contas, pago impostos, enfrento o mecânico. Igual a outras mulheres? Claro. Afinal, fomos criadas para sermos formiguinhas. A igualdade de género poderá estar na forma como cada um consegue rentabilizar as 24 horas diárias. E aí, desculpem, mas temos muitas extras a receber.

Margarida Fonseca

#fenómeno

No verão de 2017, Dolores Aveiro agradecia o facto de ter um milhão de seguidores no Instagram. Hoje, tem mais 1,7 milhões. Mais 700 mil que a atriz Rita Pereira e mais 763 mil que a apresentadora do momento, Cristina Ferreira. A dona Dolores, como é conhecida, continua grata. Por isso, partilha todos os momentos que acha importantes na sua vida de mulher adulta, com filhos criados e com sede de atenção. Fá-lo como se falasse com um vizinho, sem se preocupar em pôr filtros nas imagens, vestida casualmente, mostrando tristeza ou alegria. Dirão: mas ela é a mãe de Cristiano Ronaldo! Pois é. E talvez por via disso, quando se estreou na rede social, terá ganhado seguidores. Por ser mãe de... Hoje, porém, vendo o que ela revela diariamente, tenho dúvidas se Dolores já não ganhou autonomia. E se já não é a "mãe, avó e mulher orgulhosa pelos seus acima de tudo" (como se descreve) que vai aumentando a multidão de seguidores. Dolores é um fenómeno de popularidade. Com ou sem o filho famoso. Mostrou-se simples e genuína. Ganhou.

Margarida Fonseca

#perda.ponto

Pode haver dor pela perda de alguém que só conhecemos virtualmente? Pode. Foi disso que a jornalista Sofia Teixeira falou na "Notícias Magazine", um magnífico trabalho que veio dar alívio a quem acredita que, só pelas palavras escritas, podemos gostar sinceramente de outros. A reportagem conta um caso de entreajuda de pessoas com um problema de saúde comum, nascido no Facebook. Fala de duas pessoas que foram amigas reais sem se verem, que partilharam estados de alma e momentos solidários, primeiro por chat, depois por mensagens, a seguir em chamadas, até ao dia em que uma morreu. A que sobreviveu levou com o soco da dor, vestiu o luto e ainda hoje sente a falta da amiga que, nunca passando de uma voz, lhe fez tão bem. Lembrei-me que passei, há tempos, por uma situação complicada de saúde e que recebi apoio de muitos de quem nunca vi o rosto. Um deles foi mais longe, deu-me força, riso, confiança, mas escondeu-me que o tom baixo da sua voz era da falta de forças. Tinha um cancro. Morreu há dois meses. Fiquei com a última frase escrita: "Um dia de cada vez". Obrigada, Mário.

Margarida Fonseca

#pataepeta

A evolução é inevitável, com outros conceitos e formas diferentes de educar. Mas não estaremos a fomentar uma maneira encapotada de censura quando se aceita que haja mudanças questionáveis em nome de novas teorias? O grupo internacional de defesa dos animais PETA, que apela ao veganismo, quer acabar com a "linguagem antianimal". Assim, "pegar o touro pelos cornos" deverá ser "pegar nas flores pelos espinhos", "matar dois coelhos com uma cajadada" transforma-se em "alimentar dois coelhos de uma vez só" e "mais vale um pássaro na mão do que dois a voar" será "mais vale um pássaro a voar do que dois na mão". Tudo isto para que as palavras sejam simpáticas para os animais, os outros, porque nós também o somos, embora nos digamos racionais. E a minha racionalidade diz-me que não é a proibir expressões que se mudam comportamentos violentos. Até porque acredito que ninguém as levará à letra (tirando os forcados no caso dos touros) e que, na história das flores e dos espinhos, se fosse a minha tia amiga das flores, diria: "Tira mas é as patas daí!".