Opinião

#desabafo

São 16.47 horas. O nevoeiro cerca a casa. É feriado, 8 de dezembro, para mim dia das mães apesar do consumismo dizer que não. Está frio e cheira a fumo. No quarto, o filho vê no computador um filme a preto e branco. Espreito e vejo uma mulher a chorar, com as mãos a esconder a cara. Fecho a porta porque não quero saber da história. Na rua, buzinadelas de carros dizem que houve mais um casamento na capela. Espreito pela janela. O escuro do dia só deixa ver as luzes. Alguém começa a tocar guitarra elétrica no prédio. Toca a música "Para sempre" que Zé Pedro compôs para os Xutos e Pontapés. O Zé Pedro que nos deixou há dias. Canto baixinho o refrão: "Ai, meu amor/ O que eu já chorei por ti/ Mas sempre/ P"ra sempre/ Vou gostar de ti". A guitarra cala-se. Sobressai o som de aspiradores, de uma varinha mágica, ouvem-se vozes. 17.15 horas. Noite fechada. Passam poucos carros. Nunca entenderei esta regra de mudar a hora quando cheira a inverno. Atrasa-me o bom humor, adianta-me a nostalgia. Decido fazer sopa. Sempre aquece os pés e poupa-se um bocadinho na eletricidade desligando o aquecedor. O filme a preto e branco continua no computador. O nevoeiro está mais denso. Deixo-me cair no sofá. Que seca de feriado.

JORNALISTA