Opinião

#audemências

O amor é cego? Ainda bem. Não vê o que, em nome dele, duas estações privadas de televisão estão a fazer. O amor é cego e vê? Está mal. Acabará por assistir a quatro programas que invocam o nome dele. Pode jurar "ceguinho seja" que não verá. Mas vai ver.

Pode mentir e dizer que não sabe do que falo, que só leu umas coisas, que viu nas redes sociais... mas viu. A não ser que seja mesmo cego. E surdo. Mudo não convém porque nós precisamos que o amor nos fale ao coração - não desta maneira televisiva que confunde química e paixão, desejo e conquista com necessidade de protagonismo e "vale tudo por cinco minutos de fama". Eu vejo. Ponto. Vejo o que, em nome do amor, perdão, das audiências, andam a exibir todos os dias, com encontros em carros e em restaurantes, envolvendo agricultores, mães e filhos, homens e mulheres. Na maioria das vezes não percebo os discursos: o tom de assédio, de humilhação, de tratamento desigual. Há, porém, qualquer coisa que me leva a travar algo parecido com indignação: os reality shows chegaram há 18 anos, com exibição de cenas de sexo, pontapés que abriram telejornais, linguagem que merecia pis e mais pis. Houve casamentos, dos que são a sério, não como os de agora, arranjados pela televisão. As audiências estavam ao rubro. Até houve perdão em nome do amor. O que mudou? Não sei. Aumentou a audemência. Foi isso.

* JORNALISTA