Opinião

#confissão

Não é fácil admitir que fomos vítimas de violência doméstica. Sobretudo se crescemos com medo de contar a muitos o que poucos sabem. Dizem-nos para ter vergonha.

"Parece mal" admitir que passamos por momentos de terror, sentindo o coração a bater depressa, muito depressa, o sangue a fugir. Nós, lívidos e frios, trememos, suamos, pedimos socorro, encolhemo-nos. Nunca pude falar disto. Era doloroso para a principal vítima. "O que se passa em família fica em família" - esta a frase que tantas vezes ouvi quando tive vontade de denunciar o agressor, familiar por afinidade, pela forma como tratava as mulheres.

Espancava porque não éramos, para ele, família. Éramos objetos. Como os filhos eram objetos. O que se passou foi atroz, terrível. Marcante para a vida. Se alguém se queixava, ele fazia pior. Menos se a queixa fosse feita a um homem, da casa ou estranho. Aí, covardemente, negava. Chegava a pôr um ar tão triste que era difícil não acreditar estar inocente. Porque conto isto hoje? Porque pesa-me na alma o silêncio. Meu, da família e de quem ouviu. Peço perdão. Não volto a calar-me.

*Jornalista