O Jogo ao Vivo

Opinião

#lantejoulas

"Tu gostas muito dele, não gostas?" A pergunta pôs-lhe brilho nos olhos. "Comprei-lhe uma camisola para o Dia dos Namorados", respondeu, justificando que era só "para marcar a data", que prendas e amor devem ser coisas de "todos os dias". Sim, o amor deve ser "coisa" de todos os dias, sobretudo quando se está junto há mais de 30 anos. E é. Ele liga-lhe ao fim da tarde, pergunta onde está e ela, fingindo-se zangada, diz que ele sabe bem. "A trabalhar, ora essa!", atira, para logo largar uma gargalhada e rematar a conversa com um pedido em tom de mimo: "Vens buscar-me?". Na última quarta-feira, o tal dia de namorados, ela chegou triste. "Costumamos jantar fora, mas ele, desta vez, não disse nada. Oh, deixa lá." Eu deixei, mas reparei que faltava o brilho nos olhos dela, que estava mais calada, que olhava para o telemóvel em busca de uma chamada dele. Disse--me até amanhã num pio. Senti-lhe os passos a descer as escadas com lentidão. O amor é coisa de todos os dias, pois é. O dia dos namoradores apenas uma invenção consumista. No dia seguinte, ela já recuperara o sorriso. "Pela tua cara, ontem acabou por correr bem", afirmei, sem esconder o tom cusco. Ela riu. Alto. "Sabes o que ele fez? Pôs bombons de chocolate debaixo da camisola que ofereci. Estavam a formar um coração. Foi tão bonito!". Senti a emoção a chegar-lhe aos olhos. Tinham um brilho maior, tão grande que pareciam luas cheias feitas com lantejoulas.

* JORNALISTA

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