Opinião

#tempo

Não vou falar do Dia da Mulher. Já foi ontem. Vou falar como mulher. Hoje. Estou naquela idade em que se é nova para umas coisas e velha para outras. Não acho que a idade seja um posto. Apenas no respeito. Não me preocupa que a idade me traga mazelas, rugas, cicatrizes. São prova da minha força, sinais de vitórias. Aguento a perda da flacidez da pele, dos músculos, do brilho dos cabelos ou a escassez das sobrancelhas. Não aguento é que me olhem como coisa do outro mundo quando tento fazer algo mais arrojado. E algo mais arrojado será, por exemplo, usar expressões mais recentes (bué e fixe, cenas e "a sério?" são para quem ainda não entrou nos "enta"), assumir que não tenho força para mudar um pneu (a minha estrutura física não deixa) ou querer conhecer o quadro elétrico de casa (para não ter de pagar a estranhos com pequenas avarias). Tive um filho depois dos 30, sabendo que teria de acompanhá-lo mais depressa e que poderia obrigá-lo a inverter papéis mais cedo. Ainda não aconteceu. Continuo a fazer os papéis todos: para além da profissão, lavo e limpo, passo a ferro, cozinho, vou às compras, faço listas e contas, pago impostos, enfrento o mecânico. Igual a outras mulheres? Claro. Afinal, fomos criadas para sermos formiguinhas. A igualdade de género poderá estar na forma como cada um consegue rentabilizar as 24 horas diárias. E aí, desculpem, mas temos muitas extras a receber.

Jornalista