Opinião

Nas guerras nada há de bom

Nas guerras nada há de bom

A minha neta, de oito anos, fascinada com a história Asterix e a Cleópatra, foi descobrindo histórias de outros países e povos, como os egípcios e os gregos. E aprendeu que Alexandre o Grande era grande porque alargou o seu país, fazendo muitas guerras, anexando terras e construindo um império.

Um destes dias, fez perguntas sobre os ataques da Rússia à Ucrânia. Perante as respostas, concluiu confusa: mas então se Putin está a atacar a Ucrânia para alargar a Rússia, ele é como Alexandre o Grande?

As guerras são todas más. Talvez seja a mensagem mais importante a passar aos mais jovens. É preciso afirmar muitas vezes que nas guerras nada há de bom, nem mesmo quando são em legítima defesa, como agora na resposta da Ucrânia à agressão russa. A legitimidade da defesa contra o agressor é uma coisa, a maldade da guerra outra. Como refere Daniel L. Davis, militar norte-americano na reserva, "a guerra deve ser o último recurso absoluto. Quando a guerra começa, torna-se muito feia muito rapidamente. Falo de milhares de anos de história humana. Quando a guerra é iniciada, os piores instintos humanos são despertados. Temos sempre atrocidades. É impossível travá-las."

Referindo-se à guerra na Ucrânia, o ex-militar afirma que "colocar toda a ênfase em ajudar a Ucrânia a lutar é um erro". É preciso, argumenta, colocar todo o empenho possível na diplomacia, para parar a guerra. Tem razão. E, no entanto, José Pacheco Pereira também tem razão quando defende que a única forma de enfrentar a força bruta de Putin é pela força. As ameaças à liberdade, à dignidade da pessoa humana e à paz, na Ucrânia e na Europa, são demasiado graves para não serem contrariadas. Perder a guerra para a Rússia pode ter um preço não muito diferente do que teria sido perder a II Guerra Mundial. Onde ficamos, portanto?

As guerras devem ser terminadas tão rápido quanto possível. A matança e a destruição representam perdas irreversíveis. Sim, apoiar militarmente a Ucrânia na sua defesa legítima, sem hesitações, acolher os ucranianos, aplicar sanções à Rússia. Os países da Europa podem e devem continuar a unir forças numa resposta articulada. Mas, simultaneamente, todos os esforços devem ser feitos para negociar um cessar-fogo.

A grande angústia reside no facto de sabermos que negociar com Putin parece ser uma impossibilidade. Que o diga Angela Merkel quando, em 2014, foi chamada a negociar a paz na Crimeia. Como se negoceia com um homem fechado no seu próprio mundo, sem qualquer respeito pela vida humana? A barbárie da guerra exige que tentemos.

*Professora universitária

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG