Opinião

"Chega de saudade"

Por dois anos consecutivos, a América Latina foi deixada de fora do discurso do estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, infelizmente, um sinal de que esta região não tem sido uma prioridade para a União Europeia.

570 milhões de habitantes e 20 países não podem continuar a ser o parente pobre da política externa europeia. Como referiu o primeiro-ministro português, António Costa, no Parlamento Europeu, esta é a região com quem temos mais laços históricos, sociais e culturais. Juntos, a União e os países da América Latina representam 25% do PIB mundial.

São várias as razões deste esquecimento, mas todas elas ignoram o essencial, desde logo como precisamos uns dos outros para uma transição digital e climática inclusiva, e para a consolidação da democracia e o respeito dos direitos humanos.

Há muitos projetos à espera do reforço desta cooperação. Um deles começou com o lançamento do Ellalink, um cabo de interconexão entre Sines e Fortaleza, pela presidência portuguesa em janeiro de 2021. O cabo vai permitir um aumento do tráfego de dados entre a América Latina e a Europa de forma mais rápida e segura, mas não pode ser só uma infraestrutura para a economia digital. Tem de ser uma ligação para o trabalho científico conjunto, para a inovação e para o desenvolvimento.

Sabemos que muitos cidadãos latino-americanos passam atualmente por situações muito difíceis. Um em cada três vive em situação de pobreza. O cenário dramático que vemos surgir nesta região, a que se juntam os fluxos migratórios, é ainda mais assustador quando contraposto com a subida de 40% dos bilionários, desde o início de 2020. Este fosso crescente entre ricos e pobres torna as desigualdades a maior ameaça à democracia nesta região do Mundo e requer, com urgência, políticas progressistas capazes de o combater.

Esta semana começou, assim, de forma diferente no Parlamento Europeu com um dia dedicado ao Brasil, contando com a visita do ex-presidente Lula da Silva, de visita a várias capitais europeias para encontros com chefes de Estado. Recordámos, com saudade, uma das políticas mais importantes do Governo de Lula, a Bolsa Família, que tirou da pobreza 30 milhões de brasileiros, no período de 2003 a 2014.

O Brasil tem sofrido uma ameaça clara à sua democracia e Estado de direito com o Governo de Jair Bolsonaro. Mas não só, o Brasil tem sofrido uma ameaça ao desenvolvimento humano, à ciência e à cultura. Tomara que seja por pouco tempo.

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Precisamos de inverter o caminho de distanciamento entre a União Europeia e a América Latina, a que assistimos nos últimos anos. Inspirando-me na canção imortal de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, chega de saudade entre as duas regiões. A realidade é que, sem maior cooperação, não há paz, não há beleza; trabalhando juntas, as duas regiões poderão olhar para o Mundo com menos tristeza e melancolia e muito mais confiança.

Eurodeputada do PS

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