Opinião

Companhia de Estudo

Quando começam as aulas, lembro-me de uma advertência que o meu Pai me costumava fazer. Se não estudares e tiveres negativas vais ter explicações, o que significava mais horas de trabalho e menos de divertimento. As explicações eram então para ajudar os maus alunos ou para suprir dificuldades pontuais nesta ou naquela disciplina.

Esse tempo já passou. A forte competição que se criou na entrada para a universidade em alguns cursos - por uma décima se entra ou se fica de fora - tornou as explicações uma regra para quem as possa pagar. Mesmo os melhores alunos recorrem preventivamente ao apoio personalizado nas disciplinas que contam para a média.

Esta situação é apenas uma das muitas desigualdades que marcam a aprendizagem das crianças e jovens e, a seguir, o resto da vida.

Crianças que vivem em famílias com mais instrução e cultura têm mais vocabulário, com quem tirar dúvidas e acedem a mais recursos para aprender. Com certeza que o investimento na qualidade da escola pública ajuda a reduzir essa desigualdade. Mas não basta.

Por isso, há muito que me tinha ocorrido a ideia de ser criada uma plataforma onde quem precisasse pudesse recorrer gratuitamente a explicações nesta ou naquela disciplina, com ajuda de voluntários que disponibilizassem algumas horas do seu tempo.

Durante a pandemia, onde a desigualdade se tornou mais evidente entre os que tinham apoio em casa e os que estavam entregues a si próprios, partilhei esta ideia nas redes sociais. Houve quem se oferecesse de imediato para ajudar e quem achasse que não era exequível. Contudo, a melhor surpresa foi quando descobri que o Gonçalo Quadros, da Critical Software, não apenas tinha a mesma ideia, mas estava disponível e sabia como a pôr em prática.

Foi assim que este ano ele fez nascer a Companhia de Estudo para promover o acesso à educação, combater o insucesso escolar e inspirar crianças e jovens em contextos socioeconómicos desfavoráveis. O programa é suportado por voluntários (1 h por semana) para acompanhamento e apoio individualizado aos que mais precisam, facilitando-lhes o acesso a ferramentas e recursos e evitando que fiquem para trás no seu trajeto escolar.

PUB

O projeto-piloto decorreu já em sete instituições educativas públicas e duas associações, em Coimbra, Lisboa, Porto, Viseu e Tomar, e a avaliação de impacto do modelo foi muito positiva.

Importa agora expandir a iniciativa, encontrar outras empresas e organizações que se queiram envolver nela (fica o apelo), multiplicar os voluntários e chegar a mais crianças.

Não é o único projeto de inovação social em curso para combater a desigualdade na educação. Mas este tocou-me em especial por ser daquelas ideias que se arrastam algum tempo na nossa cabeça sem conseguirmos os meios para as passar à prática. Finalmente, ganhou asas e voou!

Não eliminará todas as desigualdades, mas no final do ano serão menos as crianças e jovens que ficarão com dúvidas e mais as que ganharão confiança nas suas capacidades e ambição na construção do seu futuro. Obrigada, Gonçalo.

*Eurodeputada do PS

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG