Opinião

Mulheres autarcas

Consta que serão menos do que as que tínhamos em 2017 as mulheres que ficarão à frente dos seus municípios: apenas 28, representando 9% do total, quando antes eram 32.

Falta-me ainda saber o que aconteceu nas presidências das freguesias, mas imagino que o resultado seja semelhante.

Contudo, não tem de ser assim. Não foi em Tábua, por exemplo, onde quatro mulheres venceram nas quatro freguesias do concelho. Merecem também destaque várias mulheres presidentes de municípios difíceis que reforçaram a sua votação, em Almada, em Lagoa, Ponta do Sol e com certeza muitas outras.

O que explica então que não haja mais mulheres nos lugares autárquicos cimeiros?

O primeiro número que me vou dedicar a recolher é o de mulheres que foram eleitas em número dois ou três. Aposto que são muitas, o que destrói a ideia peregrina de Rui Rio que não há mulheres disponíveis para ocupar lugares executivos nas autarquias.

Se lá estão e com funções exigentes porque não ficam na primeira linha? Não foram convidadas para tal ou não aceitaram o convite?

Vamos até supor que algumas recusaram e tentar entender porque será. Adianto duas hipóteses e ambas merecem ser verificadas.

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A primeira é a de que a política é vista como demasiado dura, demasiado assente em ataques pessoais e contra-ataques com a mesma natureza, em golpes baixos que exigem vestir a pele rottweiler. Quem não é capaz de ferrar os dentes e morder com muita força o inimigo deve ficar na casota ou escondida atrás de um homem.

Admitindo que tal possa acontecer, a solução deve ser a de caminhar para outras atitudes no debate e no combate político. Não apenas para atrair mais mulheres para cargos de direção política, mas sobretudo porque a troca de insultos pessoais, a inefável procura do ponto fraco que fará manchete, não faz bem à política, nem estimula a participação de mais cidadãs e cidadãos.

A segunda é a de que os horários da política não permitem ter vida pessoal e muito menos familiar. "Casei" com a política estes anos, desculpem qualquer coisinha". "Agradeço à minha mulher e aos meus filhos pelo tempo que lhes roubei", são mensagens frequentes no final dos mandatos de exercício destes cargos.

Infelizmente em muitos casos este total desrespeito pelas outras duas vidas, a pessoal e familiar, corresponde à realidade. Reuniões pela noite dentro são muito frequentes, em especial nas freguesias mais pequenas. Até na Assembleia da República havia as que começavam às 19 horas.

Uma mudança nestes hábitos, como tem feito Jacinda Arden na Nova Zelândia, com uma distribuição mais justa dos deveres de cuidado lá em casa daria uma grande ajuda. Para as mulheres e para os homens o que importa mesmo é que as três vidas sejam mais equilibradas.

Em suma, seja qual for a explicação principal para esta ausência de mulheres nas autarquias, é indispensável trabalhar para que daqui a quatro anos a fotografia de família dos presidentes eleitos não seja tão masculina como a que vi estes dias. Por um momento, achei que a foto não era deste século.

Maria Manuel Leitão Marques

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