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Opinião

Notícias falsas

As notícias falsas nas redes sociais tornaram-se num intrincado problema para as pessoas e para a democracia. São cada vez mais sofisticadas e difíceis de detetar.

Espalham-se como tinta em mata-borrão, de um modo exponencial. Quando detetadas e removidas, dificilmente os estragos podem ser reparados.

As novas tecnologias e em especial a chamada "Generative Adversarial Network" permitem de forma automática aperfeiçoar a falsidade. É como se fosse um jogo entre duas pessoas virtuais. Uma cria a notícia falsa e a outra identifica o ponto fraco que permite ver que ela não é verdadeira. A primeira corrige e aperfeiçoa e assim sucessivamente, tudo em modo virtual, automático e muito rápido, até se atingir a perfeição da falsidade.

Sempre houve notícias falsas, mas circulavam boca a boca entre amigos e conhecidos. Quando eram publicadas em qualquer meio de comunicação, fugindo ao filtro que o evitava, vinha o direito de resposta, o desmentido. Mesmo não sendo totalmente eficaz, constituía uma excelente defesa comparada com as que (não) temos nas redes sociais.

Atualmente a desinformação é, na maioria das vezes, intencional e lucrativa, tanto política como economicamente, como recentemente Frances Haugen denunciou no caso do Facebook.

O seu alcance é quase universal, sendo possível promover campanhas sob a cobertura do anonimato e adaptar a mensagem às características de cada um, apelar àqueles pontos fracos que nos deixam mais vulneráveis.

Isto é por vezes descrito como "democrático", porque todos têm uma voz igual. Mas não é assim que a democracia offline funciona, temos instituições, regras e certificações.

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O problema é que o modelo de negócio das redes sociais depende da interação dos utilizadores, de as pessoas passarem horas ligadas e clicarem naquilo que mais gostam. Isto significa que os conteúdos que recebem mais cliques e "trazem" mais pessoas para as plataformas são os mais promovidos e, não pouco frequentemente, estes são conteúdos controversos, incluindo desinformação. As plataformas têm relutância em atuar mesmo nos casos que conhecem, por serem audiências que melhoram o seu negócio.

É, portanto, claro que precisamos de regulação e, por isso mesmo, a UE propôs um regulamento para regular os intermediários online e, em particular, as plataformas online - a Lei dos Serviços Digitais.

O modelo proposto é mais ou menos o seguinte. Vamos supor um tweet com conteúdo suspeito de ser ilegal. Primeiro, outros utilizadores que não aquele que "tweetou" terão um mecanismo claro para o denunciar, e esta notificação tem de ser respondida pelas plataformas; segundo, o criador do tweet supostamente ilegal terá também um modo de defender a sua posição; e, finalmente, as plataformas terão regras claras para saber quando e como podem agir. Além disso, esta proposta de lei exige às maiores plataformas a realização de auditorias e avaliação e mitigação de riscos.

Estaremos ainda longe de encontrar a solução perfeita. Sinto, aliás, que legislamos em modo experimental. Mas, pelo menos, encetámos um caminho para um espaço digital mais responsável.

*Eurodeputada do PS

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