Opinião

Os "espiões" da democracia

Os "espiões" da democracia

A semana passada participei na Missão de Observação Eleitoral da União Europeia às eleições municipais e regionais da Venezuela, dirigida pela minha colega Isabel Santos.

Foram daqueles dias de trabalho intenso em que nos sentimos úteis a cada minuto. Ouvimos diferentes forças políticas, incluindo o partido de Governo, representantes da sociedade civil, da academia e, naturalmente, o Conselho Nacional Eleitoral.

No dia das eleições, visitámos muitas mesas de voto, desde aquelas que funcionavam em condomínios fechados até às da maior favela da América do Sul, Petare. Isso também nos deu a oportunidade de constatar as gritantes desigualdades que existem neste país, atualmente com uma economia totalmente "dolarizada", onde a taxa de pobreza duplicou nos últimos cinco anos.

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Gostei de ver um sistema de votação eletrónico moderno e fiável, funcionando, em geral, com as devidas garantias de privacidade. Foi, aliás, previamente auditado por peritos independentes.

Pude ainda conversar com muitas e muitos cidadãos venezuelanos, que votaram na esperança de que o seu voto ajude a melhorar a sua vida e asseguraram, com um grande sentido de dever cívico, o funcionamento das mesas eleitorais por mais de 14 horas. Muitas mulheres permaneceram no seu posto até ser noite, como foi o caso da mesa do bairro muito pobre onde assisti à contagem dos votos, sabendo que o regresso a casa provavelmente não seria feito com grande segurança.

Mas também foram notórias as dificuldades que ainda enfrentam os partidos da Oposição numa luta eleitoral injusta, devido à desproporcionalidade de meios que dispõem para a sua campanha, face aos utilizados pelo partido do Governo de Nicolás Maduro, muitos dos quais utilizados ilegalmente. Sem esquecer, o impedimento de alguns candidatos da Oposição se poderem candidatar (as chamadas inabilitações), sem que nada na lei o justifique e decididas por tribunais que não são independentes.

As palavras que Maduro dirigiu aos membros desta missão, nos dias a seguir às eleições, apelidando-nos de "espiões", diria que são expectáveis, sabendo que não nos intimida ou desvia de traduzir no relatório final os factos positivos e negativos que tivemos a oportunidade de observar.

Como foi referido na conferência de imprensa que encerrou esta fase da missão, os problemas da Venezuela só podem ser resolvidos pelas venezuelanas e venezuelanos, num diálogo que deve envolver todas as forças políticas. O nosso objetivo nesta missão foi um só, o de com este trabalho poder contribuir para o reforço da confiança nas instituições, em especial no sistema de votação, e para a reconstrução do Estado de direito na Venezuela. E se assim for, pela minha parte não me importo de ter sido uma "espia" da democracia.

Eurodeputada do PS

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